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quinta-feira, junho 21, 2012

«Declaração de Amor à Língua Portuguesa», por Teodolinda Gersão

... e ainda há quem diga mal do AO?!? ... :-D ... :-D

«Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso,confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas,mas as ideias são todas deles.
Aqui ficam,e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.

Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto:  No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. “O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.»

Para ler o resto: http://aventar.eu/2012/06/11/declaracao-de-amor-a-lingua-portuguesa/

quarta-feira, julho 06, 2011

«Uma rebelde» (Iva Delgado)

[No dia em que vão ser lidas as alegações finais no processo crime interposto pelos sobrinhos de Silva Pais contra Margarida Fonseca Santos, Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira.]

Assisti ao visionamento da peça "A Filha Rebelde", no âmbito do julgamento em curso. Já a tinha visto aquando da estreia. A autora, o encenador e o director do Teatro Nacional D. Maria II estão sob acusação de difamação do bom nome de Silva Pais, director da PIDE.

A objectividade em arte não existe, não se pretende através de uma peça de teatro absolver ou condenar seja quem for. A arte ultrapassa intenções. A verdade é que Annie podia ser qualquer jovem mulher saturada de uma vida cujo modelo lhe é transmitido por um marido enfadonho e autoritário, por um pai rigoroso, mas sentimental, uma mãe chata, rebarbativa, dominadora (soberbamente recriada por uma Lídia Franco no fio de navalha entre o dramático com aspas e o cómico - quando enxota um emissário do bilhete de avião é inexcedível).

Estes três elementos duma família podiam ter qualquer apelido, valeriam sempre enquanto personagens de teatro. O facto de haver sistemas políticos antagónicos (uma ditadura de direita e uma de esquerda) apenas exemplifica a "generation gap", ou pano de fundo ideológico, ou outro qualquer motivo de discórdia entre pais e filhos, neste caso nem é o essencial.

Há uma motivação pessoal em Annie.

Sente-se uma inútil como mulher de diplomata, como objecto de exposição acéfalo, flor decorativa de festas oficiais, sem direito a opinião própria, com estatuto obrigatório de esposa.

Quer trabalhar, ser útil, está sedenta por abraçar uma causa.

E deixa-se cativar pela revolução cubana e pelo seu ícone carismático Che Guevara. É óbvio que a paixão que se apodera de Annie sacrifica marido, pai, mãe e até pátria. Onde é que já ouvi, vi, li isto? É tema clássico.

Os nomes, as situações históricas, o próprio Salazar "perdoando" a Silva Pais os desvarios da filha, no contexto do drama maior da rebeldia de Annie, são o pano de fundo. Há na peça uma intemporalidade, uma existência aquém da realidade, uma transfiguração teatral que impede a apropriação duma interpretação unívoca, tautológica, processual.

Há uma infinidade de interpretações possíveis duma palavra, duma fala, duma cena, dum gesto ou ausência dele; tudo tem sentido na traumática apropriação da personagem pelo actor ou vice-versa. É o espectador quem verdadeiramente interpreta os significados múltiplos. Não existe a unilateralidade, a miopia da visão redutora, o magister dixit de um encartado que afirma: "alto! aqui na linha três, na viragem para a linha quatro, há delito!" Isso, só num regime de censura prévia.

A peça tem a sua vida própria, os seus momentos irrepetíveis, obedece a causalidades que não se esgotam no texto ou subtexto, no talento dos atores, na força telúrica do palco, no equilíbrio entre ficção e realidade, na possibilidade permanente de haver inversão de uma e outra. A arte é isso mesmo, liberdade criativa, de quem escreve, de quem representa, de quem é espectador.

Quando Silva Pais diz ao personagem Rosa Casaco: "abafem-me esse general" está a dizer o que lá está dito ou o que não está lá dito?

Quando Silva Pais, de roupão, doente, entabula diálogo com o passado, é um pai angustiado e patético ou a figura tenebrosa de polícia-mor de um regime opressivo? O pormenor do roupão, eis tudo.

Annie, de vestido vermelho, trágica, sem futuro, cancerosa, dança um adeus ao seu corpo triste. É a filha rebelde ou a mulher perante o seu destino?

O que não se compreende é que se gastem recursos pagos pelo contribuinte num processo judicial em que se acusa a autora de difamação da memória e bom nome de Silva Pais. Então acusem-me a mim e a todos os espectadores que não deixam à porta do teatro o espírito crítico, nem a bagagem histórica, nem a experiência pessoal. E das duas uma: ou já sabiam ou ficaram a saber. Ou então nada perceberam.

Iva Delgado

Link para o site da Fundação Humberto Delgado - http://www.humbertodelgado.pt/WebFHD/index.jsp

No FaceBook - https://www.facebook.com/notes/humberto-delgado/uma-rebelde/251433984870663

sábado, julho 02, 2011

Análise de Rui Vieira Nery - sobre o processo «A Filha Rebelde»

Publicado no grupo a 30/06/2011
http://www.facebook.com/home.php?sk=group_218651868154749&ap=1

«Tudo é assustador neste processo escabroso. Em primeiro lugar, naturalmente, a própria tese de fundo de que o dirigente principal da polícia política do fascismo não é responsável pelos actos da corporação que dirige, mesmo quando não os executou pessoalmente. Depois a ideia de que como o primeiro processo que lhe foi instaurado ficou sem efeito pela morte do arguido isso equivale a uma absolvição. A juntar a isso o princípio de que o direito à imagem pode sobrepor-se de forma absoluta e ilimitada a todos os outros direitos legítimos em presença (liberdade de expressão, liberdade de criação artística, direito à informação, interesse público, etc.). Em seguida, o próprio efeito de pressão ilegítima que a simples admissão do processo exerce sobre os criadores, os historiadores, os editores e os produtores relativamente a futuras ocasiões em que possam vir a ser confrontados com situações como esta. E por último porque se insere numa tendência mais geral muito preocupante para tentar branquear o carácter intrinsecamente ilegítimo e criminoso do Estado Novo e dos seus agentes, envolvendo-o numa ilusão de "normalidade" desculpabilizadora.»

quinta-feira, junho 30, 2011

«Aos meninos sobrinhos de Silva Pais ...» - Carta Aberta (por Luís Pinto)


«Aos meninos sobrinhos de Silva Pais, crianças loiras de olhos azuis, sentem-se no chão de pernas cruzadas e ouçam o que tenho para vos dizer; Estou a acompanhar este “passatempo” de tamanha graça só ao alcance de meninos mimados como vós. Milhares de palavras espalhadas neste local que constroem harmoniosamente uma pirâmide de opiniões. Porque a conclusão da história cabe à paciência dum juiz que se “entretém” a dar ouvidos ao julgamento mais infantil que alguma vez lhe passou pela sua conduta imparcial.

E quero que os meninos me digam: quem paga este desaforo? Quem é o responsável pelas horas perdidas neste confronto? Quem?

Serei eu a pagar a “destruída boa imagem” do vosso tio que Deus tem? Os meninos sabem que ele - o Silva, não Deus - foi um facínora que se lembrou de morrer antes de ouvir o veredicto dos seus crimes?

Mas a natureza tem coisas divinas e misteriosas; como é possível o gajo vosso tio, ter sido pai duma Annie? Duma Annie que lhe fugiu por entre os dedos para abraçar a linda causa cubana, mas volta célere para defender o seu pai. Era pai, caramba. Um pai pode ser o maior patife, mas não é por isso que deixa de ser pai.

E na peça de teatro que os meninos não devem ver porque tem conteúdo bem longe da vossa compreensão, o valor daquela mulher está magnificamente representado.

O que está por detrás desta vossa brincadeira, queridas crianças? Uns trinta mil euros? Não acredito! Por trinta mil euros os meninos reavivaram o pensamento colectivo duma nação de brandos costumes que a pouco e pouco se vai esquecendo da asquerosa ditadura que vosso tio ajudava e cimentava.

Eu acabo já porque vejo em vós vontade de se levantarem para irem fazer xixi.

Pois podem ir meninos, podem ir. Mas também vos digo; deviam ter pensado várias vezes nesta vossa tão triste brincadeira porque, no fim de tudo, vão levar umas palmadas em sitio conveniente por se entreterem em incomodar as pessoas nas horas dos vossos trabalhos de casa. Ai, ai, que paciência a minha, meninos, que paciência!» - Por @Luis Pinto, no Grupo de Solidariedade com os arguidos do processo crime «A Filha Rebelde» (29/06/2011) - http://www.facebook.com/home.php?sk=group_218651868154749&ap=1

quarta-feira, junho 29, 2011

Apresentação do GRUPO - Solidariedade com os réus do processo-crime «A Filha Rebelde»


Texto de apresentação da página de Grupo no Facebook

https://www.facebook.com/home.php?sk=group_218651868154749&ap=1

GRUPO - Solidariedade com os réus do processo-crime «A Filha Rebelde»


1. Objecto


Esta página na rede social Facebook foi criada para manifestar publicamente solidariedade para com os arguidos no processo crime do caso designado de “A Filha Rebelde”.

O processo decorre de uma queixa-crime apresentada pelos herdeiros de Silva Pais (SP), o último director da PIDE, contra a autora da peça, Margarida Fonseca Santos, e ainda contra Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira, dirigentes do Teatro Nacional D. Maria II (TNDM II), à data da produção da peça de teatro “A Filha Rebelde”, em 2007.

Essa queixa-crime baseia-se na alegação de que Silva Pais (SP) teria sido alvo de difamação e ofensa de pessoa falecida na peça referida.


2. Razões para a criação deste Grupo

A iniciativa de criação desta página assentou nos seguintes fundamentos:

a) a convicção de que este processo coloca em causa a liberdade de expressão e de criação artística - situação que não é aceitável 37 anos após o 25 de Abril, que pôs fim à censura, ao tristemente famoso "lápis azul”.

b) a responsabilidade cívica de, no exercício da cidadania activa, expressar a nossa indignação contra o que pode ser uma tentativa de "reescrever" a história, branqueando a acção criminosa da PIDE e reabilitando os seus agentes, responsáveis que são por perseguições, torturas, mortes e atropelos à liberdade de expressão, que durante quase 50 anos sufocaram a sociedade portuguesa;

c) a premência de criar um amplo movimento de apoio aos arguidos deste processo, um movimento que congregasse diversas sensibilidades políticas e ideológicas que defendam os valores da cidadania democrática.


3. Para saber mais …

Alegam os sobrinhos de SP que a peça desrespeita o bom nome e a honra do tio. A peça de teatro A Filha Rebelde baseia-se no livro com o mesmo título, da autoria dos jornalistas do Expresso, José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, publicado em 2004, após três anos de pesquisa. Os autores, utilizando as técnicas do jornalismo de investigação, recorreram a várias fontes, nomeadamente os arquivos da PIDE/DGS, do Ministério dos Negócios Estrangeiros e até o Arquivo Histórico-Militar, assim como testemunhos de familiares e fontes documentais pertencentes à família de Silva Pais (por exemplo, o diário da mãe de Annie e viúva de SP).

Os Autores (dois sobrinhos de SP) da acção judicial interpuseram uma queixa-crime por considerarem ofensivas algumas frases da peça. Por exemplo, uma em que SP é referido como o “mandante” da morte do General Humberto Delgado, barbaramente assassinado em Espanha, responsabilidade essa que não ficou provada em tribunal. Silva Pais não chegou a ser condenado, dado que faleceu enquanto o julgamento decorria. Os autores materiais do crime poderão até ter exorbitado para lá da incumbência que lhes foi cometida, mas não seria o director da PIDE politicamente responsável pelo crime? Em todo o caso, não compete a este grupo esclarecer a questão. Essa é matéria para outras investigações.
A peça de teatro, ainda que baseada em factos verídicos, não pode nem deve confundir-se com um documento histórico. Ao artista tem de ser reconhecida a liberdade de interpretar factos históricos e recriar a realidade, de que, de resto, não se conhecem todos os contornos. De assinalar, aliás, que SP não é o principal protagonista da peça, mas sim a sua filha, que, conforme indica o título, se rebelou contra os valores dominantes na sociedade e contra o posicionamneto ideológico do pai, abandonando a família para abraçar a revolução cubana. A peça, no entanto, retrata a relação afectiva entre um pai e uma filha que, para lá das divergências ideológicas, se amavam. De SP é dado na peça um retrato psicológico humanizado, mais favorável até do que no próprio livro em que a peça se baseia.

Este processo-crime, bem como toda a movimentação que se tem gerado em seu redor, não podem ser olhados de forma isolada — nada acontece fora de um determinado contexto histórico, sociocultural e político.

Por um lado, uma certa corrente na sociedade portuguesa parece pretender o esquecimento do que foi o fascismo, a que eufemisticamente chamam de regime autoritário, dando uma imagem suavizada de Salazar. Por outro lado, os testemunhos na primeira pessoa, que têm sido expressos por vítimas da PIDE (ou familiares de vítimas), a indignação que tem vindo à tona por não se ter feito justiça a seguir ao 25 de Abril, têm mostrado que há muito a fazer para que a memória não se apague. É importante que os nossos jovens e todas as futuras gerações saibam que houve quem tivesse morrido por ordem do regime ditatorial, que houve quem passasse muitos anos da sua vida na prisão e fosse barbaramente torturado por se manifestar contra o regime, por não concordar com a guerra colonial, por querer derrubar a ditadura.

O movimento em torno deste caso nasceu com o objectivo específico de apoiar os arguidos, sujeitos a um processo ignóbil que lhes tem roubado tempo e energias. Foi também nosso propósito mobilizar a opinião pública para o absurdo do processo. É a liberdade de expressão e de criação artística, o próprio âmago da democracia, que é posta em causa neste processo. Pelo que enquanto cidadãos livres e responsáveis temos o dever de estar vigilantes na defesa intransigente da DEMOCRACIA e da LIBERDADE.

Abraços solidários



Nota:

A página do Grupo tem sido administrada de forma colegial por: Anália Gomes, António Sousa Dias, Helena Romão, Margarida Belchior, autores deste documento.

A administração deste grupo não se responsabiliza pelas opiniões expressas por cada um dos membros do grupo. As opiniões e tomadas de posição que cada um aqui expressa são da sua única e inteira responsabilidade.

quinta-feira, junho 09, 2011

Nunca é demais ... Solidariedade com os réus do processo «A Filha Rebelde»

Só no final da semana passada soube do processo crime que tinha sido instaurado à Margarida Fonseca Santos, minha amiga e autora da peça «A Filha Rebelde» que foi levada à cena no Teatro Nacional D. Maria II (em 2007), e aos administradores à época do referido teatro, Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira.

Este processo crime foi interposto pelos sobrinhos de Silva Pais, o director-geral da PIDE/DGS, responsável máximo por todas as atrocidades (mortes, torturas, perseguições políticas, ...) perpetradas pelo regime ditatorial que deu origem ao 25 de Abril. Consideram eles que a peça tinha matéria ofensiva para a memória do seu tio - ao contrário do que acontece no livro com o mesmo nome, de José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, e no qual a autora da peça de teatro se baseou.

Inacreditável como é possível que a nossa justiça leve a julgamento um processo como este. Verdade seja dita que o Ministério Público não subscreveu a acusação.

Tem sido impressionante a adesão que tem tido no FaceBook o grupo de solidariedade com estes réus - http://www.facebook.com/home.php?sk=group_218651868154749¬if_t=group_r2j - uma verdadeira progressão geométrica de adesões: cemeçámos por ser 40 no primeiro dia, depois 200 (segundo dia), depois 400 (terceiro), 600 (quarto dia) e, ontem à noite, no final do quinto dia, éramos já mais de 900 membros. Lá temos procurado reunir toda a informação que nos tem chegado sobre este "inacreditável" processo.

Está em causa a liberdade de expressão, a censura à actividade e liberdade artísticas, a memória de tantos que sofreram e morreram pelas mãos da PIDE/DGS. Há já quem fale em levar o processo para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, em Estrasburgo, caso não seja feita cá justiça. Não quero nem pensar que tal não venha a acontecer.

As memórias e as revoltas que têm vindo à superfície são testemunhos históricos, na primeira pessoa, impressionantes.

Sabemos como há movimentos, mesmo a nível internacional, para que a história seja reescrita, naquilo que ela tem de mais obscuro: ontem, ouvi na audiência do julgamento, que o Silva Pais tinha sido absolvido no julgamento dos assassinos do Humberto Delgado - isto dito por uma testemunha de acusação (ela nem sabia que ele não tinha sequer sido julgado por ter morrido a meio do processo; mas sabia que ele tinha uma péssima fama junto do povo português! ... vá-se lá saber porquê!?!?! ... :-)); sabe-se também que há quem queira negar a existência das atrocidades que foram cometidas em Auschwitz; ... e haverá certamente mais casos.

Frequentemente em casos como este "o feitiço vira-se contra o feiticeiro", como diz o ditado popular e, na minha modesta opinião, é isso que está já a acontecer com toda esta solidariedade e o avivar da nossa memória colectiva que tem gerado.

As repercussões deste processo e de toda a mobilização que tem gerado são para já imprevisíveis. Confio que seja feita justiça, para já no tribunal, relativamente a este inconcebível processo crime, e em muitas outras dimensões da nossa vida e actividades colectivas: reedição do livro, levar a peça novamente à cena, o surgimento de novas publicações, ... e tudo o mais que a nossa grande criatividade nos ditar!! ...

Todos temos que fazer a nossa parte - e muito será feito se cada um fizer a sua!! ... esta é a minha, o meu modesto contributo para avivar memórias, para me solidarizar com uma LINDA amiga e os outros réus deste processo, bem como com todos os que sofreram de forma directa, ou mesmo indirecta, com as atrocidades da PIDE/DGS, ao lutarem pela democracia e por uma sociedade mais justa para este país.

domingo, maio 22, 2011

The New York Times: «O desnecessário resgate a Portugal», by Robert Fishman

O sociólogo Robert Fishman escreve no "The New York Times" sobre o "desnecessário resgate de Portugal" e acusa as agências de notação financeira de distorcerem a percepção que os mercados tinham da estabilidade do País.

Portugal não precisava deste resgate. Foi sobretudo a especulação que precipitou o País para o pedido de ajuda externa. O culpado não foi o governo, mas sim a pressão das agências de “rating”. É esta a opinião de Robert Fishman, professor de Sociologia na Universidade de Notre Dame, num artigo hoje publicado no jornal “The New York Times”.

Na opinião de Fishman - que escreveu, em conjunto com Anthony Messina, o livro intitulado “The Year of the Euro: the cultural, social and political import of Europe’s common currency” -, a solicitação de ajuda externa à UE e ao FMI por parte de Portugal deverá constituir um aviso para as democracias de todo o mundo.

A crise que teve início no ano passado, com os resgates da Grécia e da Irlanda, agravou-se, constata o professor. “No entanto, este terceiro pedido nacional de ajuda não tem realmente a ver com dívida. Portugal teve um forte desempenho económico na década de 90 e estava a gerir a sua retoma, depois da recessão global, melhor do que vários outros países da Europa, mas sofreu uma pressão injusta e arbitrária por parte dos detentores de obrigações, especulações e analistas de “rating” da dívida que, por razões ideológicas ou de tacanhez, conseguiram levar à queda de um governo democraticamente eleito e levaram, potencialmente, a que o próximo governo esteja de mãos atadas”, salienta Robert Fishman no seu artigo de opinião publicado no jornal norte-americano.

O sociólogo adverte que “estas forças do mercado, se não forem reguladas, ameaçam eclipsar a capacidade de os governos democráticos – talvez até mesmo o norte-americano – fazerem as suas próprias escolhas em matéria de impostos e despesa pública”.

"Crise em Portugal é completamente diferente"

Apesar de as dificuldades de Portugal se assemelharem às da Grécia e da Irlanda, uma vez que os três países aderiram ao euro, cedendo assim o controlo da sua política monetária, o certo é que “na Grécia e na Irlanda, o veredicto dos mercados reflectiu profundos problemas económicos, facilmente identificáveis”, diz Fishman, realçando que “a crise em Portugal é completamente diferente”.

Em Portugal, defende o académico, “não houve uma genuína crise subjacente. As instituições económicas e as políticas em Portugal, que alguns analistas financeiros encaram como irremediavelmente deficientes, tinham alcançado êxitos notáveis antes de esta nação ibérica, com uma população de 10 milhões de pessoas, ser sujeita a sucessivas vagas de ataques por parte dos operadores dos mercados de obrigações”.

“O contágio de mercado e os cortes de ‘rating’ , que começaram quando a magnitude das dificuldades da Grécia veio à superfície em inícios de 2010, transformou-se numa profecia que se cumpriu por si própria: ao elevarem os custos de financiamento de Portugal para níveis insustentáveis, as agências de ‘rating’ obrigaram o País a pedir ajuda externa. O resgate confere poderes, àqueles que vão “salvar” Portugal, para avançarem com medidas de austeridade impopulares”, opina Robert Fishman.

“A crise não resulta da actuação de Portugal. A sua dívida acumulada está bem abaixo do nível de outros países, como a Itália, que não foram sujeitos a avaliações [de ‘rating’] tão devastadoras. O seu défice orçamental é inferior ao de vários outros países europeus e tem estado a diminuir rapidamente, na sequência dos esforços governamentais nesse sentido”, refere o professor, que fala ainda sobre o facto de Portugal ter registado, no primeiro trimestre de 2010, uma das melhores taxas de retoma económica da UE.

Em inúmeros indicadores – como as encomendas à indústria, inovação empresarial, taxa de sucesso da escolaridade secundária e crescimento das exportações -, Portugal igualou ou superou os seus vizinhos do Sul e mesmo do Ocidente da Europa, destaca o sociólogo.

Porquê os "downgrades?"

“Então, por que motivo é que a dívida soberana portuguesa foi cortada e a sua economia levada para a beira do precipício?”, questiona-se Fishman.
Na sua opinião, há duas explicações possíveis. Uma prende-se com o cepticismo ideológico do modelo económico misto de Portugal, com o apoio aos empréstimos concedidos às pequenas empresas, de par com umas quantas grandes empresas públicas e um forte Estado Providência, explica.

A outra explicação está na “inexistência de perspectiva histórica”. Segundo Fishman, os padrões de vida dos portugueses aumentaram bastante nos 25 anos que se seguiram à Revolução dos Cravos, em Abril de 1974, tendo havido na década de 90 um acelerado aumento da produtividade laboral, do investimento de capital por parte das empresas privadas, com a ajuda do governo, e um aumento dos gastos sociais. No final do século, Portugal tinha uma das mais baixas taxas de desemprego da Europa, sublinha também o professor.

Mas, realça, o optimismo dos anos 90 deu origem a desequilíbrios económicos e a gastos excessivos. “Os cépticos em torno da saúde económica de Portugal salientam a sua relativa estagnação entre 2000 e 2006. Ainda assim, no início da crise financeira mundial, em 2007, a economia estava de novo a crescer e o desemprego a cair. A recessão acabou com essa recuperação, mas o crescimento retomou no segundo trimestre de 2009”, refere.

Assim, no seu entender, “não há que culpar a política interna de Portugal. O primeiro-ministro José Sócrates e o PS tomaram iniciativas no sentido de reduzir o défice, ao mesmo tempo que promoveram a competitividade e mantiveram a despesa social; a oposição insistiu que podia fazer melhor e obrigou à demissão de Sócrates, criando condições para a realização de eleições em Junho. Mas isto é política normal, não um sinal de confusão ou de incompetência, como alguns críticos de Portugal têm referido”.

Europa poderia ter evitado o resgate

E poderia a Europa ter evitado este resgate?, questiona-se. Na sua opinião, sim. “O BCE poderia ter comprado dívida pública portuguesa de forma mais agressiva e ter afastado a mais recente onda de pânico”.

Além disso, Fishman afirma que é também essencial que a UE e os EUA regulem o processo utilizado pelas agências de “rating” para avaliarem a qualidade da dívida de um país. “Ao distorcerem as percepções do mercado sobre a estabilidade de Portugal, as agências de notação financeira – cujo papel na aceleração da crise das hipotecas ‘subprime’ nos EUA foi extensamente documentado – minaram a sua retoma económica e a sua liberdade política”, acusa o académico.

“No destino de Portugal reside uma clara advertência a outros países, incluindo os Estados Unidos. A revolução de 1974 em Portugal inaugurou uma vaga de democratização que inundou o mundo inteiro. É bem possível que 2011 marque o início de uma vaga invasiva nas democracias, por parte dos mercados não regulados, sendo Espanha, Itália ou Bélgica as próximas vítimas potenciais”, conclui Fishman, relembrando que os EUA não gostariam de ver no seu território o tipo de interferência a que Portugal está agora sujeito – “tal como a Irlanda e a Grécia, se bem que estes dois países tenham mais responsabilidades no destino que lhes coube”.

quarta-feira, maio 04, 2011

A nacionalidade do Super-homem, de Obama e a morte de Bin-Laden

Na semana em que sai a nova aventura do Super-homem e nela ele renuncia à nacionalidade norte-americana, no palco das Nações Unidas - até o Super-homem, um símbolo da identidade nacional nos EUA, quer abdicar da sua nacionalidade ...

Na semana em que Obama precisa de apresentar e publicar a sua certidão de nascimento, para mostrar aos cépticos que, apesar da sua cor de pele, nasceu no Kansas, e não em África, e que, por essa razão, tem toda a legitimidade para ser presidente dos EUA ...

Na semana em que um presidente dos EUA, prémio Nobel da Paz, dá autorização para que seja desencadeada uma operação militar por tropas de elite norte americanas, no Paquistão, que resulta na morte de Bin-Laden, considerado o maior terrorista à superfície terrestre ...

http://www.elpais.com/articulo/opinion/Bin/Laden/ultima/aventura/Superman/elpepiopi/20110504elpepiopi_4/Tes

Na semana em que ...

... ficamos a perceber mais claramente que algo vai mal à superfície deste planeta - não é só a crise do euro ... neste canteiro à beira mar plantado, que faz parte de uma Europa sem norte, e por isso também em crise ... apesar de achar que o problema é apenas dos mais fracos e dos mais pobres ... neste caso, os países do sul ...

... são de condenar todos os actos de terrorismo e de violência ...

... pergunto: o que está na origem de todos estes actos de violência, considerados terroristas ou não? ...

... só encontrando respostas, em conjunto, para esta questão, poderemos, enquanto humanidade, viver num mundo melhor ... e eu gostaria muito de contribuir para isso.

domingo, maio 01, 2011

terça-feira, outubro 26, 2010

«Conheço um país ... »




Nicolau Santos, Director - adjunto do Jornal Expresso, In Revista Exportar

In http://www.porto.taf.net/dp/node/3249

«Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de mortalidade mundial de recém-nascidos, melhor que a média da UE.
Eu conheço um país onde tem sede uma empresa que é líder mundial de tecnologia de transformadores.
Eu conheço um país que é líder mundial na produção de feltros para chapéus.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventa jogos para telemóveis e os vende no exterior para dezenas de mercados.
Eu conheço um país que tem uma empresa que concebeu um sistema pelo qual você pode escolher, no seu telemóvel, a sala de cinema onde quer ir, o filme que quer ver e a cadeira onde se quer sentar.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventou um sistema biométrico de pagamento nas bombas de gasolina.
Eu conheço um país que tem uma empresa que inventou uma bilha de gás muito leve que já ganhou prémios internacionais.
Eu conheço um país que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial, permitindo operações inexistentes na Alemanha, Inglaterra ou Estados Unidos.
Eu conheço um país que revolucionou o sistema financeiro e tem três Bancos nos cinco primeiros da Europa.
Eu conheço um país que está muito avançado na investigação e produção de energia através das ondas do mar e do vento.
Eu conheço um país que tem uma empresa que analisa o ADN de plantas e animais e envia os resultados para os toda a EU.
Eu conheço um país que desenvolveu sistemas de gestão inovadores de clientes e de stocks, dirigidos às PMES.
Eu conheço um país que tem diversas empresas a trabalhar para a NASA e a Agencia Espacial Europeia.
Eu conheço um país que desenvolveu um sistema muito cómodo de passar nas portagens das auto-estradas.
Eu conheço um país que inventou e produz um medicamento anti-epiléptico para o mercado mundial.
Eu conheço um país que é líder mundial na produção de rolhas de cortiça.
Eu conheço um país que produz um vinho que em duas provas ibéricas superou vários dos melhores vinhos espanhóis.
Eu conheço um país que inventou e desenvolveu o melhor sistema mundial de pagamento de pré-pagos para telemóveis.
Eu conheço um país que construiu um conjunto de projectos hoteleiros de excelente qualidade um pelo Mundo.

O leitor, possivelmente, não reconheceu neste país aquele em que vive… PORTUGAL!!

Mas é verdade. Tudo o que leu acima foi feito por empresas fundadas por portugueses, desenvolvidas por portugueses, dirigidas por portugueses, com sede em Portugal, que funcionam com técnicos e trabalhadores portugueses. Chamam-se, por ordem, Efacec, Fepsa, Ydreams, Mobycomp, GALP, SIBS, BPI, BCP, Totta, BES, CGD, Stab Vida, Altitude Software, Primavera Software, Critical Software, Out Systems, WeDo, Quinta do Monte d'Oiro, Brisa Space Services, Bial, Activespace Technologies, Deimos Engenharia, Lusospace, Skysoft, Portugal Telecom Inovação, Grupos Vila Galé, Amorim, Pestana, Porto Bay e BES Turismo.

Há ainda grandes empresas multinacionais instaladas no País, mas dirigidas por portugueses, com técnicos portugueses, de reconhecido sucesso junto das casas mãe, como a Siemens Portugal, Bosch, Vulcano, Alcatel, BP Portugal e a McDonalds (que desenvolveu e aperfeiçoou em Portugal um sistema que permite quantificar as refeições e tipo que são vendidas em cada e todos os estabelecimentos da cadeia em todo o mundo.
É este o País de sucesso em que também vivemos, estatisticamente sempre na cauda da Europa, com péssimos índices na educação, e gravíssimos problemas no ambiente e na saúde… do que se atrasou em relação à média UE… etc.
Mas só falamos do País que está mal, daquele que não acompanhou o progresso.

É tempo de mostrarmos ao mundo os nossos sucessos e nos orgulharmos disso.»

quinta-feira, maio 13, 2010

Imposições dos "mercados": Incompreensível!!

Quando os "mercados" se impõem ... chegam estas medidas por parte do governo.

http://www.liberation.fr/economie/0101635240-le-gouvernement-portugais-s-apprete-a-annoncer-un-choc-fiscal


Mas quem manda afinal? ... onde fica a tão falada (e necessária) transparência de que os cidadãos eleitores precisam?

Andam a brincar com o dinheiro de quem efectivamente trabalha? ... a atirar-nos areia para os olhos?

Tudo isto enquanto o país se concentra na visita papal?

«O rei vai nu»?

terça-feira, maio 04, 2010

«Jesus Cristo num hospital», Frei Bento Domingues



É um grande privilégio podermos ter entre nós quem escreve e consegue dar-nos sinais de esperança como o Frei Bento, nos momentos «Incompreensíveis» que vivemos!!

Muito Obrigada, Frei Bento!!

PÚBLICO, 02/05/2010

Os infindáveis telejornais, tecidos quase só por desgraças, acabam por se tornar em agentes de depressão colectiva

1. É um conto exemplar. Muito breve. Chamar-lhe conto até pode ser excessivo, mas merece ser reencaminhado. Começa assim: Jesus Cristo, cansado do tédio do Paraíso, onde tem pouco que fazer, resolveu voltar à Terra. Optou pelo Hospital de S. Francisco Xavier, onde viu um médico a trabalhar há muitas horas e a morrer de cansaço. Para não atrair as atenções, decidiu ir vestido de médico. Entrou de bata, passando pela fila de pacientes no corredor, até atingir o gabinete do médico. Os pacientes viram e comentaram: "Olha, vai mudar o turno..."

Jesus Cristo entrou na sala e disse ao médico que podia sair, dado que ele mesmo iria assegurar o serviço. E, muito decidido, gritou: "O próximo!" Entrou no gabinete um homem paraplégico que se deslocava numa cadeira de rodas. Jesus levantou-se, olhou bem para o homem e, com a palma da mão direita sobre a sua cabeça, disse: "Levanta-te e anda!"

O paraplégico levantou-se, andou e saiu do gabinete empurrando a cadeira de rodas. Quando chegou ao corredor, o primeiro da fila perguntou: "Que tal é o médico novo?" Ele respondeu: "Igualzinho aos outros... nem exames, nem análises, nem medicamentos... Nada! Só querem despachar..."

2.Já viajei, por razões de trabalho, bastante mais pelo país e pelo mundo do que agora, mas não perdi o gosto de os conhecer cada vez melhor. O prazer maior das viagens não é só a descoberta dos mundos que ignoramos, mas sobretudo o encontro com as suas fontes de identidade e de renovação. Estive em vários países em guerra. Vi muita miséria e destruição. No entanto, o que sempre mais me ocupou não foram as dimensões da desgraça, mas as iniciativas para se poder voltar a viver com esperança.

O que mais desejo encontrar nos meios de comunicação - talvez como toda a gente - são revelações do que está a acontecer, em todos os aspectos, no país e no mundo. Devem saber ver e dar a ver, trazendo alguma luz ao quotidiano. Como, neste aspecto, era muito raro ter sorte, tornei-me absentista, procurando outros meios de informação. Julgo que os infindáveis telejornais, tecidos do princípio ao fim quase só por desgraças, ao não servirem com competência a verdade e a liberdade de informação, acabam por se tornar em agentes de depressão colectiva. Matam de tal modo a sensibilidade dos telespectadores que, como diz o Evangelho, já nada os consegue espantar, nem mesmo a "ressurreição de um morto" (Lc 16, 19-31).

A primeira religião que conheci era uma mistura de catolicismo azedo e de superstições locais. Existia para meter medo. Toda a gente sabia histórias terríveis de aparições medonhas de figuras do mal. Tinha de ir mais gente para o inferno do que para o céu. No Norte, chamavam aos pregadores dessa religião os "padres da vinagreira". Hoje, de certo modo, a "religião" dos telejornais e dos seus sacerdotes também parece que só está interessada em mandar o país para o inferno. Mesmo quando há sinais de que é possível enfrentar as enormes dificuldades com que o país se debate, insiste-se em mostrar que não há saída.

Em sentido muito próximo, mas num panorama mais vasto e englobante, Mário Soares (DN, 27.04.2010) publicou um notável artigo, onde também achou fastidiosas e inúteis as comissões parlamentares de inquérito que têm sido transmitidas em directo pela televisão. Em vez de prestigiarem o Parlamento, como é importante que aconteça - como centro da vida democrática que deve ser -, estão a desprestigiá-lo. A sanha persecutória dos deputados-inquisidores não é diferente da guerrilha partidária desbocada e interminável. Revestindo aspectos pessoais desagradáveis, cria enfado nos que a seguem, não permite que se debatam os problemas que afligem os portugueses e só desvia as atenções.

3.O Padre Timothy Radcliffe, ex-mestre-geral da Ordem Dominicana, o homem do diálogo ecuménico entre as Igrejas cristãs, do diálogo intercultural e inter-religioso, um dos grandes promotores do diálogo no interior da Igreja católica, não esconde a onda de raiva e de desgosto que as revelações de abusos sexuais, por padres, têm provocado. Confessa que recebeu e-mails de pessoas de toda a Europa a perguntar como é que elas ainda podem permanecer na Igreja. Como ficar?

Num texto muito pertinente ("The Tablet", 10.04.2010), que, aliás, já circula na Internet em tradução, explica as razões porque rejeita os apelos ao abandono da Igreja depois dos escândalos eclesiásticos. Não procura encobrir, não desculpa, mas ajuda a entender a história da Igreja, desde os começos, e como se pode e deve trabalhar na sua renovação.

Hans Küng, sem dúvida um dos mais conhecidos e famosos teólogos do Vaticano II ainda vivos, com uma imensa obra de investigação e divulgação, companheiro do Papa na Universidade de Tubinga, não se contenta com criticar o percurso dos últimos Papas e da Cúria romana. Acaba de fazer propostas muito concretas para a preparação de um novo concílio. O texto circula em várias línguas. Há tradução em português da "Carta Aberta aos Bispos de todo o Mundo" (PÚBLICO2, 24.04.2010).

Nem todos, na sociedade e na Igreja, têm a atitude do paraplégico curado por Jesus Cristo.

domingo, maio 02, 2010

«Um bom retrato ...»

Quando as finanças e a economia se globalizam e ganham uma dimensão planetária, como se pode ver pelos posts anteriores, este tipo de retratos, não apenas do país, mas do mundo em que vivemos, passam a ser muito fiéis:



In PÚBLICO, 2/05/2010

Incompreensível 3: «As teses do taxista»

... e agora o artigo de opinião da Áurea Sampaio, também na última Visão (29/04/2010):
http://aeiou.visao.pt/as-teses-do-taxista=f556936

... onde se lê o seguinte:

«(...) A realidade é que nesta Europa onde os egoísmos prevalecem e em que as pulsões nacionalistas se sobrepõem cada vez mais à razão de encontrar caminhos de equidade na acção política, há uma lição a retirar desta crise que vivemos: é mais fácil salvar um banco do que salvar um país. Pode ser um daqueles acasos absolutamente inexplicáveis, mas pode ser também um símbolo dos tempos que vivemos o facto de o país mais atacado pelos rostos sem ética da especulação e tão vilmente humilhado pelos dirigentes europeus ser justamente o berço da nossa civilização e da nossa cultura. (...)»


[O sublinhado é meu.]

Incompreensível 2: «De novo a Portugal, S.A.»

Só agora li o que escreveu São José Almeida no PÚBLICO de hoje ... ela escreve do que sabe e fundamentadamente, aquilo que eu gostaria de saber escrever. Resta-me o consolo de ver confirmada a minha incompreensão... :-)


De novo a Portugal, S. A.
Por São José Almeida
in PÚBLICO, 01/05/2010

Por que razão os bancos que estiveram na origem da crise financeira internacional continuam a manter o seu lucro?

Esta semana, o alarme voltou a soar. A agência de notação financeira (ou rating) Sandard & Poor"s baixou a classificação de Portugal enquanto país capaz de cumprir o pagamento das suas dívidas - isto é, para os mercados financeiros Portugal está em estado de pré-falência. A bolsa portuguesa entrou em colapso. O líder do PSD pediu para se reunir com o primeiro-ministro e as trombetas em defesa da soberania financeira do país tocaram a despique. O acordo de Bloco Central surgiu na terça-feira em torno da ideia de antecipar três medidas do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) que incidem sobre a fiscalização e o controlo de despesa pública com prestações sociais e a redução do subsídio de desemprego - ou seja, aperta-se o torniquete de novo sobre os que menos podem.

A decisão de uma agência privada que classifica a capacidade dos devedores, sejam privados, sejam Estados, de pagar o que devem não nasceu do nada. Há um mês uma outra grande agência de rating, a Fitch, tinha baixado a sua classificação sobre Portugal. E a semana passada, pela voz de um Prémio Nobel da Economia e pela de um antigo responsável do Fundo Monetário Internacional (FMI), Portugal foi alertado para a possibilidade de entrar em bancarrota. Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia, disse que, depois da Grécia, "não se pode excluir a hipótese de falência noutros países, como Portugal ou a Espanha". E o ex-economista chefe do FMI Simon Johnson considerou que "ambos [Portugal e Grécia] estão, em termos económicos, na vertigem da bancarrota e ambos parecem mais arriscados do que a Argentina em 2001, quando sucumbiu ao incumprimento" (PÚBLICO 21/04/2010).

Por sua vez, o FMI colocou Portugal na cauda dos países europeus, afirmando que tem 18 por cento de probabilidades de provocar instabilidade e perturbações na zona euro, quando a Grécia está nos 21,4 por cento e a Espanha, em terceiro lugar, fica a uns distantes 12,7 por cento (PÚBLICO 21/04/2010). A cereja no bolo foi dada pelo mesmo FMI, que reviu em baixa, para 0,3 por cento, a previsão para o crescimento da economia portuguesa este ano, quando o Governo apontara para um por cento no Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) para 2010 (PÚBLICO 22/04/2010) - ou seja, diminuem as expectativas de Portugal poder produzir riqueza que lhe dê capacidade de cumprir os seus compromissos. O economista João Ferreira do Amaral ainda disse que "o problema não é Portugal", acrescentando que "a zona euro não foi criada de forma minimamente sólida e não está preparada para situações destas" (PÚBLICO 21/04/2010). Mas surgiu como uma voz isolada no mainstream nacional e europeu, onde ninguém parece minimamente interessado em debater a questão de fundo que está subjacente a esta aparente falência de Portugal e antes da Grécia.

E a questão de fundo passa precisamente por questionar se é normal que os países sejam avaliados e se comportem como se de empresas se tratasse. Já a propósito do Orçamento do Estado para este ano questionámos as pressões das agências de rating, precisamente por causa da sua capacidade de avaliação sobre se Portugal tem condições de pagar a sua dívida.

A questão de fundo não é assim a de saber se Portugal sobe ou desde nas tabelas de devedores. É a de saber se faz sentido os Estados estarem classificados e funcionarem de acordo com regras de mercado como se fossem empresas.

É certo que o problema é geral. É certo que este é o modo de funcionar da política mundial que soçobrou à adoração e à subserviência ao mercado. É certo que a maioria das forças políticas que governam a Europa e o mundo não questionam esta forma de funcionamento. E tudo parecia andar sobre rodas até que a crise internacional veio por a nu as fragilidades do sistema.

Agora o que parece incompreensível é que, perante a exposição crua do que estas regras de mercado provocam, perante a visibilidade explícita de que são meia dúzia de multinacionais financeiras que governam o mundo, ninguém questione e queira reflectir sobre a necessidade de mudar o sistema. Sobre a necessidade de dar aos Estados (nacionais, unidos ou federados, pouco importa) a capacidade de conduzir a sua gestão de forma autónoma desses agentes. Por que razão os bancos que estiveram na origem da crise financeira internacional continuam a ditar as regras e a manter o seu lucro?

Certamente que é preocupante atalhar o problema e tomar medidas para que o país, dentro das regras que tem de jogar, não fique em situação cada vez mais fragilizada. É urgente fazer face à situação de descalabro financeiro. Mas a dúvida que se coloca é a de saber qual vai ser o fim disto. Como vai acabar esta situação internacional em que a economia do mundo passou a ser explicitamente controlada e governada por meia dúzia de empresas financeiras, mais concretamente de bancos, e em que os políticos e os governos dos Estados recebem delas as ordens, as regras e as orientações de procedimento? Repito: até onde vai isto conduzir o mundo? A que ponto é preciso chegar para que estas regras sejam questionadas?

Como tudo parece indicar que a classe política europeia não está interessada ou não pode sequer, pelo grau de submissão ao poder económico que já vive, tentar inverter as regras e o sistema de funcionamento instalado, a pergunta impõe-se: quem é que vai pagar a factura? As empresas? Os que lucram? Ou será que a solução desta crise vai passar novamente pelo apertar da situação dos que menos têm? Será que a solução desta crise, nacional e internacional, vai passar pelo agravar da luta de classes invertida que tem tentado ao longo dos últimos 30 anos retirar direitos a quem trabalha e diminuir a redistribuição da riqueza por toda a sociedade?

Qual vai ser a solução para resolver o problema de dívida em Portugal, depois do sinal dado esta semana pelo acordo entre Sócrates e Passos Coelho: baixar salários? Retirar férias e mais subsídios? Acabar com a saúde e o ensino com carácter universal revendo a Constituição? Já agora, por que não se avança para a taxação real do lucro dos bancos? Insisto: por que razão os bancos têm de manter os seus lucros em prejuízo de toda a sociedade e da soberania de países? Jornalista (sao.jose.almeida@publico.pt)

sábado, maio 01, 2010

Incompreensível: Crise, PEC e "ratings" e "spreads"

Há tempos o mundo entrou numa crise económica generalizada por causa dos mercados financeiros e bolsistas - foi o que ouvi, não percebo nada destes assuntos: tudo é para mim demasiado abstracto e longínquo, toldado por uma nuvem de incompreensão. Compra e venda de acções, obrigações, e nem sei bem mais o quê ... "Coisas", que nem se materializam, mas que dão enormes lucros a grandes investidores, às grandes fortunas, incluindo a bancos e seguradoras, de que todos somos clientes (e que por isso sustentamos). Bancos e seguradoras que não pagam o mesmo tipo de impostos sobre os seus rendimentos, como os contribuintes individuais ou sequer as médias e pequenas empresas, tão necessárias para a sustentar empregos a tantos que apenas vivem do seu trabalho.

Em épocas de crise naturalmente que os grandes investidores bolsistas também terão grandes percas - como os próprios dizem para quem está a seu lado: «Quem não arrisca não petisca!» Às vezes penso que também gostaria de poder perder como eles perdem, nestes jogos de perder e ganhar bolsistas, sem ver ameaçadas as minhas necessidades básicas de subsistência: "habitação, pão, saúde, educação, trabalho, ..." Não devo ser única, certamente. Eu sou das que vivo apenas do meu ordenado, um ordenado de professora, do qual nem sequer me posso queixar porque chega todos os finais de mês e é bastante acima do salário médio nacional.

Esta conversa toda, vem hoje a propósito dos títulos que estava tranquilamente a ler na Visão, nas minhas leituras de fim-de-semana. Não resisti a vir aqui partilhar as minhas interrogações, inquietações e perplexidades face ao momento crítico que vivemos enquanto pequeno país, num contexto mais global. Estes problemas nem sequer são apenas nossos ...

Títulos e excertos da Visão:
«Às vezes, nos mercados, os especuladores filam num país e atacam-no fortemente para, por essa via, conseguir lucros extraordinários.» (Cavaco Silva, Presidente da República [não foi nele que votei como candidato presidencial]

«BOLSAS. As principais praças da Europa recuaram perante o ataque especulativo contra as dívidas da Grécia e de Portugal.» (Legenda de fotografia, Visão, p. 60)

«[Vitor Bentes] defende a redução dos salários e dos preços para recuperar a competitividade perdida. Agora, vê o FMI propor a "sua" solução para a Grécia.» [Ele defende o mesmo para Portugal, p. 58, em entrevista]

«Vivemos a cima das nossas posses, gastando mais do que produzimos. É assim desde há, pelo menos, dez anos. Por isso, endividámo-nos. E muito. Os credores ainda não nos bateram à porta, mas começam a desconfiar de nós.» (sic) Visão, p. 55

Ontem vi um jornalista da SIC a fazer contas em directo sobre o contributo de metade do 13º mês da população activa portuguesa para atenuar o montante da dívida pública nacional: apenas seria possível atenuar 6,5 dias dessa dívida.

Há dias falava-se dos prémios escandalosos dos gestores públicos.

Há qualquer coisa em tudo isto de completamente inaceitável e profundamente injusto e escandaloso para todos os que não têm emprego e para os que vivem do seu trabalho e respectivo rendimento mensal.

Não são os funcionários ou os trabalhadores por conta de outrém, que apenas vivem da remuneração do seu trabalho que vivem acima das suas possibilidades. Quem paga às administrações das empresas públicas, dos bancos, das seguradoras? Como vivem estes senhores e senhoras?

Às vezes ponho-me a comparar todo este "gigantesco polvo" com a D. Branca, lembram-se?

São os mercados bolsistas que nos conduziram à crise em que actualmente se vive que agora vêm ditar as regras e pôr em causa a fragilidade dos sistemas que contribuíram para criar? Não há já princípios éticos? O dinheiro não tem cheiro nem cor?

Acabo de ler este artigo impressionante: «Os mercados são manipulados» - já nem se pode acreditar nas tão incólumes e "benéficas" leis da oferta e da procura que regulam os mercados... O que nos resta então? Quem tem medo de mudar?

P.S. - Desculpem-me, não percebo nada disto mesmo. Mas gostaria muito de perceber, sobretudo se a opção política e governamental for a de baixar salários ou a de cortar nos subsídios - penso sobretudo naqueles que têm rendimentos muito inferiores ao meu. Pessoalmente, e face às dificuldades do país, já há muito que me conformei com o facto de não poder ter a minha reforma ao fim de 32 anos de serviço e de 52 de idade, ao abrigo do contrato social (e laboral) que assinei com a minha entidade empregadora, o Ministério da Educação, há já 30 anos, ainda antes de todas estas mudanças que têm vindo a ser introduzidas no Estatuto da Carreira Docente. A manter-se a inoperacionalidade decisória para inverter tão vergonhosa e injusta situação financeira , penso que todos os que estivermos na mesma situação deveríamos começar a pensar seriamente em entregar esta questão a um bom advogado laboral.

[Se esta temática vos interessam e preocupam, leiam em seguida: http://abeirario.blogspot.com/2010/05/de-novo-portugal-sa.html]