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domingo, setembro 20, 2026

"Make the school great again", Daniel Oliveira, Expresso, 17/09/2026

 

 


Crato construiu-se a vender uma versão simples de um problema complicado: a escola estragada pelo facilitismo, a solução no regresso ao que se fazia antes. Quando os números não cabiam, não corrigiu a tese, mas os factos e o que tinha dito sobre eles. Sempre a mesma conclusão: depois de mim, o caos. Uma década de autoelogio apoiada em mentiras e meias-verdades repetidas até passarem por senso comum. Não sou da área, por isso fico-me pelos factos. Ou melhor: pelas datas.

Os resultados do PISA 2025 saíram há uma semana e Nuno Crato fez, de forma prolixa, o que faz há dez anos: um ajuste de contas para explicar que as escolas portuguesas progrediram enquanto ele foi ministro e cairam a partir do momento em que deixou de o ser. Não sou da área e não vou entrar no debate pedagógico, onde outros dirão coisas mais interessantes. Fico-me pelos factos. Ou melhor: pelas datas. Elas mostram que uma década de autoelogio se apoiou em mentiras e meias-verdades repetidas até passarem por senso comum, com o mesmo populismo sobre exigência e facilitismo que lhe fez a carreira de comentador antes de lhe fazer a de ministro. Populismo mascarado de rigor.

Os resultados são meus

A tese fundadora é esta: os melhores resultados de sempre são obra sua. Num texto para a Fundação Francisco Manuel dos Santos, escreveu que os dois fatores mais importantes para 2015 foram as Metas Curriculares — a lista, ano a ano, do que cada aluno deve saber em cada disciplina — e as provas finais do 4º e do 6º ano. Ora, os alunos testados em 2015 tinham 15 anos. Entraram na escola em 2006 e fizeram o 4º ano em 2009/10, quando não existia qualquer exame no 4º ano — as provas finais desse ano só chegaram em 2014, como o próprio recordouem 2020. As metas foram homologadas em agosto de 2012 e o despacho dele determinava que nesse ano letivo fossem apenas orientações recomendadas. Quando se tornaram obrigatórias, estes alunos já andavam no 8º. Sobra a prova do 6º ano, criada em 2012, que a maior parte fez no fim de seis anos de escola inteiramente cumpridos com os programas anteriores. É este o alicerce de uma década de autoelogio.

Da década perdida à década que foi estragada

No dia em que os resultados saíram Crato pediu, em declarações à Renascença, para compararmos "a política seguida, entre 2002 e 2015, que foi uma política de progressiva atenção aos resultados, de melhoria do currículo, de procura de um currículo mais exigente, de avaliação dos alunos", com "a política seguida a partir de 2016, que foi uma política de menos exigência curricular". E concluiu: "há uma política entre 2000 e 2015, de atenção aos resultados, de exigência, há uma política após 2016, de contrariar essa exigência". Acontece que a primeira década desse período de exigência é a mesma a que ele mesmo chamou, durante anos, antes de ser ministro, nas televisões e nos jornais, "década perdida". Foi com este discurso que chegou a ministro, aliás. Em 2006 publicou "O 'Eduquês' em Discurso Directo: Uma Crítica da Pedagogia Romântica e Construtivista" e coordenou "Desastre no Ensino da Matemática: Como Recuperar o Tempo Perdido". Nem se desdisse: em 2017, já fora do governo, repetia a conversa à Folha de S. Paulo.

Limitei-me a continuar

Não só reabilitou a década que demolira como se apresenta como seu continuador. No mesmo texto para a FFMS, escreve que os progressos até 2015 "devem-se à continuidade de uma política de ambição e exigência educativa" e "ao seu aprofundamento". Vejamos em que consistiu esse aprofundamento em quatro anos: entre outras medidas, revogou o currículo nacional do ensino básico; revogou os programas de português e de matemática que ainda estavam a ser implementados; desmantelou a educação de adultos; acabou com o estudo acompanhado e área de projeto, coisa que enumera com orgulho na mesma entrevista à Folha; extinguiu o Plano Tecnológico da Educação; acabou com os três programas de formação de professores que mais impacto tinham tido, o Plano de Ação da Matemática, o Plano Nacional para o Ensino do Português e o Ensino Experimental das Ciências; tirou aos alunos com deficiência o direito a turmas mais pequenas no secundário; e criou exames no 4º ano, que não existiam desde 1974. Só pode falar de continuidade porque conta com um público distraído.

A rutura veio depois de mim

Garante que o que veio depois dele inverteu o caminho que se seguia até aí. Foi ao contrário: a partir de 2016 repôs-se oque ele tinha interrompido e que vinha da década perdida que afinal foi excelente. A educação de adultos reabriu com o Programa Qualifica, criado pela portaria de agosto de 2016. As tutorias voltaram no despacho de organização do ano letivo de junho desse ano, a preencher o buraco deixado pelo fim do estudo acompanhado. Em abril de 2016 nasceu o Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, com a lógica de intervenção precoce dos programas de formação que ele descontinuara. As alterações curriculares só avançaram depois de ouvidas as associações de professores, ao contrário do que sucedera com as suas metas, postas a consulta pública durante um mês de verão.


Deixaram de avaliar os alunos

Da consulta que não houve passemos à avaliação que deixou de haver. Em dezembro de 2020, numa declaração enviada à Lusa, escreveu que o exame do 4º ano "foi abolido e não foi substituído por nenhuma forma de avaliação externa". Repetiu-o na semana passada, quando disse que foram abolidas as provas do 4º e do 6º ano e que "foram desprezados os exames". O exame do 9º ano nunca desapareceu, com a excepção dos anos de pandemia. E as provas de aferição, longe de terem acabado, passaram a abranger mais anos de escolaridade — o 2º, o 5º e o 8º — e mais disciplinas do que as duas a que ele as limitara. O que mudou não foi a existência de avaliação externa, foi a sua função, que passou de prova com efeito na retenção a instrumento de diagnóstico, aplicado mais cedo, para permitir corrigir a tempo. Provas externas no primeiro ciclo existem em vários países da OCDE, o que é mais raro é fazê-las pesar na progressão de uma criança de nove anos. Só em dois desses países e nenhum entre os que têm melhores resultados. Pode discordar-se da mudança. O que não se pode é descrevê-la como o desaparecimento daquilo que continuou a existir.


As minhas metas vieram dos programas

Crato diz que as suas metas curriculares foram construídas a partir dos programas então em vigor. Mas foi ele que revogou o programa de matemática, em abril de 2013, por despacho. Na língua portuguesa, chamou consultores para darem parecer e o parecer foi devastador: a Associação de Professores de Português concluiu que as metas criavam um imediato desfasamento com a estrutura do programa que diziam ter por base e eram "um retrocesso de mais de uma dezena de anos" no ensino do português; e o Centro de Linguística da Universidade do Porto considerou, em abril de 2015, que não estavam reunidas "condições nem suficientes nem necessárias" para homologar aquilo. Mas o matemático homologou na mesma, três meses depois. E o documento final saiu com a lista dos consultores impressa, críticos incluídos, como se a tivessem abençoado. Quatro deles tiveram de escrever ao ministro a exigir que lhes tirasse o nome de lá. As metas não foram feitas a partir dos programas em vigor. Foram feitas contra eles.

Os resultados provaram que as minhas metas funcionaram

As metas, garante, estão "feitas e provadas". A prova existe e diz o contrário. Em fevereiro de 2016, três meses depois de o seu governo ter saído, sem qualquer possibilidade de haver qualquer efeito do novo governo, aplicou-se em Portugal o PIRLS, o estudo internacional que avalia a leitura no 4º ano. Os alunos testados eram os primeiros a fazer o primeiro ciclo com as metas de Crato. Portugal caiude 541 para 528 pontos, do 19º para o 30º lugar entre 50 países. Foi a segunda maior queda de todos os participantes, a seguir ao Irão, e a maior da Europa, num ciclo em que 27 dos 41 países comparáveis melhoraram. E o mais notável é que é ele próprio a invocar o PIRLS: na semana passada, à Renascença, disse que a queda livre desde 2016 é confirmada pelos dados do TIMSS e do PIRLS. Cita o estudo que o desmente, a contar que ninguém vá ver em que ano foi feito.

Se sobe é o meu currículo, se desce é o ambiente deles

Diz, desde sempre, que a queda começa em 2016. Um sinal internacional dessa queda foi o TIMSS de 2019, o teste de matemática do 4º ano, em que Portugal desceu de 541 para 525 pontos. Quando João Costa, então secretário de Estado da Educação, lhe atribuiu essas responsabilidades, respondeu que as metas curriculares, aquelas "pelas quais foram preparados os alunos" avaliados em 2015, "não sofreram alterações até hoje". É verdade: os alunos testados em 2019 entraram na escola em 2015/16 e fizeram os quatro anos de primeiro ciclo inteiramente com o currículo dele. Não há outra geração a quem imputar aquela queda. Ele sabe-o e por isso não culpa o currículo mas o ambiente — a "natureza vaga" das aprendizagens essenciais, que só chegaram às escolas em 2018, quando aqueles alunos já andavam no 4º ano, e a falta de avaliação. Quando os números sobem, a causa é o currículo dele. Quando descem, é o ambiente à volta. Em 2015, os resultados provavam o valor das metas. Em 2019, com as mesmas metas, já provavam outra coisa qualquer.

Eu tinha avisado que faltariam professores

Sobre a falta de professores, garante que o problema já estava sinalizado no seu tempo. Em setembro de 2024, num debate na CNN, disseque "essa falta está anunciada desde pelo menos 2012 e 2013", altura em que um estudo do ministério teria alertado para o que aí vinha. Admitamos que sim. Nesse caso, passou os três anos seguintes a fazer exatamente o contrário do que sabia. Em setembro de 2012 dizia ao jornal Sol que a "redução de professores" seria "inevitável nos próximos anos" e que, "no futuro imediato, vamos continuar a assistir a necessidades muito limitadas de contratação". E, quanto ao rácio de alunos por professor, estávamos "mais do que ricos" em comparação com os outros. Não ficou pelas palavras. Entre 2010/11 e 2014/15, segundo a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, o corpo docente do básico e do secundário no continente passou de 146 mil para 115 mil professores: mais de 30 mil a menos, uma quebra de 21% em quatro anos, feita de rescisões por mútuo acordo, horários zero e contratados que deixaram de ser chamados. O problema que agora diz ter previsto foi, em parte, alimentado por ele.

Nuno Crato construiu-se a vender uma versão simples de um problema complicado: a escola portuguesa estragada pelo facilitismo, os professores reféns de pedagogias, a solução no regresso ao que se fazia antes. A nostalgia que cai sempre bem em quem acredita que a sua 4ª classe era melhor do que os 12º ano de hoje fez-lhe a carreira antes de lhe fazer o mandato. O problema é que os números nunca couberam lá dentro. Houve subida durante a década que ele demolia, houve queda com a primeira geração formada pelo seu currículo, houve avaliação externa quando ele a dava por morta, houve professores a menos e ele foi um dos que os tirou do sistema. Mas nunca corrigiu a tese. Foi corrigindo os factos e o que tinha dito sobre eles até caberem na única frase que interessa: depois de mim, o caos.

Link: https://expresso.pt/opiniao/2026-09-17-make-the-school-great-again-ccf3a057