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quinta-feira, março 24, 2016

"um só poema" #4

Metamorfoses da casa

Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.

Eugénio de Andrade


Mosteiro de Nossa Senhora Vestida de Sol, dezembro 2014

quarta-feira, março 23, 2016

"Um só poema" #3

Imagino o sabor dos seus lábios
E quase que aposto
Sem medo de errar
Que têm um gosto adocicado
Difícil de encontrar

Mena Sancho


Braga, junho 2014

terça-feira, março 22, 2016

"Um só poema" #2

A casa começa com uma escada íngreme
Deus abençoe quem vier por bem
À direita há a sala de jantar com a moldura de um bisavô
a mesa de madeira escura
 sopa prato e fruta
Foste embora e a casa ficou escura
Imagino à noite o silêncio dos objetos
Onde antes havia uma máquina de costura
 a televisão ligada nas notícias
um mastigar vagaroso
agora existe noite e pó
A nossa casa ficou sozinha

Joana Cabral


Lisboa, dezembro 2015

segunda-feira, março 21, 2016

"Um só poema" #1 (corrente de poesia)

As mãos (Manuel Alegre)

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.


Paris, Museu Rodin, junho 2008

segunda-feira, março 10, 2014

Há mulheres ...

HÁ MULHERES que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma."

SOPHIA

sexta-feira, agosto 16, 2013

"Afinador de silêncios", por Mia Couto

Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez.

Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.

Mia Couto in "Antes de Nascer o Mundo"

sábado, abril 13, 2013

Lágrima, de Eugénio de Andrade




Lágrima

Dos olhos me cais,
redonda formosura.
Quase fruto ou lua,
cais desamparada.
Regressas à água
mais pura do dia,
obscuro alimento
de altas açucenas.
Breve arquitectura
da melancolia.
Lágrima, apenas.

Coração do Dia (1958), Eugénio de Andrade


In Facebook: http://www.facebook.com/EugenioDeAndrade

domingo, março 31, 2013

"O meu país sabe ...."


As Amoras

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade - "O Outro Nome da Terra"
In Facebook: http://www.facebook.com/EugenioDeAndrade?ref=ts&fref=ts

quinta-feira, março 28, 2013

"São eles que anunciam o verão ... "





Aos jacarandás de Lisboa

São eles que anunciam o verão.
Não sei doutra glória, doutro
paraíso: à sua entrada os jacarandás
estão em flor, um de cada lado.
E um sorriso, tranquila morada,
à minha espera.
O espaço a toda a roda
multiplica os seus espelhos, abre
varandas para o mar.
É como nos sonhos mais pueris:
posso voar quase rente
às nuvens altas – irmão dos pássaros –,
perder-me no ar.

Eugénio de Andrade

Foto - Largo do Correio-Mor - Lisboa


In Página de Eugénio de Andrade no facebook: http://www.facebook.com/EugenioDeAndrade

quarta-feira, março 13, 2013

"Casa arrumada ..."

 Uma casa é como um país ... não podemos deixar que o "esterilizem", que o "limpem" ...


"Casa arrumada" é assim:

Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas...

Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.

Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...

E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.

Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...

E reconhecer nela o seu lugar.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Read more: http://www.ovaledoribeira.com.br/2011/07/poema-casa-arrumada.html#ixzz2N59DDupi

terça-feira, janeiro 22, 2013

90º aniversários de Eugénio de Andrade (1923 - 2005)

Homenagem: Eugénio de Andrade faria 90 anos a 20 / 1 / 2014



"É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer."

segunda-feira, janeiro 07, 2013

Entrei no café com um rio na algibeira

[Encontrado em: http://ruadaindia.blogspot.pt/2012/12/poemario-de-ano-novo.html
Muito obrigado, CCF! ... :-) ]

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira

quarta-feira, dezembro 26, 2012

... un mundo donde quepan todos los mundos ...


"Estava à espera da meia noite e do novo dia, para colocar esta imagem linda.
Como diz a minha amiga Teresa Cunha "Um outro mundo não é apenas possível como está chegando. Nos dias mais serenos consigo senti-lo respirar!"
Bons sonhos!" by Almerinda Bento, in https://www.facebook.com/almerinda.bento

terça-feira, dezembro 25, 2012

"Eu aprendi", by William Shakespear


(Não podia ter encontrado melhor para o Dia de Natal)

EU APRENDI

que a melhor sala de aula do mundo
está aos pés de uma pessoa mais velha;

EU APRENDI

que ser gentil é mais importante do que estar certo;

EU APRENDI

que eu sempre posso fazer uma prece por alguém
quando não tenho a força para
ajudá-lo de alguma outra forma;

EU APRENDI

que não importa quanta seriedade a vida exija de você,
cada um de nós precisa de um amigo
brincalhão para se divertir junto;

EU APRENDI

que algumas vezes tudo o que precisamos
é de uma mão para segurar
e um coração para nos entender;

EU APRENDI

que deveríamos ser gratos a Deus
por não nos dar tudo que lhe pedimos;

EU APRENDI

que dinheiro não compra "classe";

EU APRENDI

que são os pequenos acontecimentos
diários que tornam a vida espetacular;

EU APRENDI

que debaixo da "casca grossa" existe uma pessoa
que deseja ser apreciada,
compreendida e amada;

EU APRENDI

que Deus não fez tudo num só dia;
o que me faz pensar que eu possa?

EU APRENDI

que ignorar os fatos não os altera;

EU APRENDI

que o AMOR, e não o TEMPO,
é que cura todas as feridas;

EU APRENDI

que cada pessoa que a gente conhece
deve ser saudada com um sorriso;

EU APRENDI

que ninguém é perfeito
até que você se apaixone por essa pessoa;

EU APRENDI

que a vida é dura, mas eu sou mais ainda;

EU APRENDI

que as oportunidades nunca são perdidas;
alguém vai aproveitar as que você perdeu.

EU APRENDI

que quando o ancoradouro se torna amargo
a felicidade vai aportar em outro lugar;

EU APRENDI

que devemos sempre ter palavras doces e gentis
pois amanhã talvez tenhamos que engolí-las;

EU APRENDI

que um sorriso é a maneira mais barata
de melhorar sua aparência;

EU APRENDI

que todos querem viver no topo da montanha,
mas toda felicidade e crescimento
ocorre quando você esta escalando-a;

EU APRENDI

Que quanto menos tempo tenho,
mais coisas consigo fazer.

William Shakespeare

sexta-feira, setembro 07, 2012

Nous sommes faits pour aimer / Nós somos feitos para amar

Monastère Orthodoxe de S. Michel du Var, Fança
Agosto 2012 


Nous sommes faits pour aimer ... / Nós somos feitos para amar ...
comme les oiseaux pour chanter, / como os pássaros para cantar,
comme les fleurs pour parfumer, / como as flores para perfumar,
comme les fleuves pour couler. / como os rios para colorir.

Nous sommes faits pour donner ... / Nós somos feitos para dar ...
comme la source pour étancher, / como a fonte para caldear,
comme l'ombre pour rafraîchir, / como a sombra para refrescar,

comme l'arbre pour protéger. / como a árvore para proteger.

Nous sommes faits pour rire ... / Nós feitos para rir ...
comme la ballerine pour danser, / como a bailarina para dançar,
comme le clown pour pirouetter, / como o palhaço para fazer piruetas,
comme l'enfant pour sauter. / como a criança para saltar.

Nous sommes faits pour grandir... / Nós somos feitos para crescer ...
comme l'herbe pour verdir, / como a erva para se tornar verde,
comme le blé pour pousser, / como o trigo para despontar,
comme le ciel pour bleuir. / como o céu para ficar azul.

Jules Beaulac

P.S. - A tradução é minha.