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sexta-feira, abril 13, 2012

Identidade cultural e Acordo Ortográfico

Muito obrigada por esta carta que me enviaram sobre o Acordo Ortográfico. Permitiu-me voltar a refletir, a fundamentar e manifestar a minha posição sobre esta polémica.

Sou a favor do Acordo Ortográfico celebrado entre os países lusófonos, que tem uma orientação eminentemente fonética. Fui sempre muito penalizada na escola primária por causa da ortografia, até à 4ª classe, depois disso deixei de dar erros, como que por "magia". Não foi por "magia", foi porque a minha professora da 4.ª classe (como então se dizia) se fartou de trabalhar connosco a ortografia e porque eu amadureci. Na nossa escola primária - atual 1.º Ciclo do Ensino Básico -  e agora falo como professora deste nível de ensino, sobrevaloriza-se a ortografia. Há outros aspetos muito mais importantes a considerar na aprendizagem da escrita, como sejam a "textualidade" - a fluência da escrita - as ideias que se querem transmitir, a construção da argumentação (ou seja o encadeamento das ideias). Lembro aqui como o trabalho de alfabetização de Paulo Freire, no Brasil, foi associado à emancipação das populações, à sua capacidade de lutar por melhores condições de vida, à sua capacidade de se organizarem. A escrita tem um grande peso na nossa cultura e pode ser, sem dúvida alguma, um fator de emancipação, tal como pode ser também um fator de descriminação e exclusão social. A escrita trabalha-se ... é como tudo: é necessário escrever e reescrever e voltar a escrever e a reescrever. A ortografia trabalha-se também - mas há aspetos muito mais importantes a considerar, em meu entender, sobre este assunto e ainda mais no momento presente.

A minha identidade cultural, enquanto portuguesa, não fica em nada ameaçada pela mudança ortográfica. Não creio que o mesmo nos aconteça enquanto povo. Pobres os que sentem afetada a sua identidade cultural, o seu sentimento de pertença, por uma alteração na ortografia: as regras da grafia, da escrita.

Pessoalmente, enquanto portuguesa, gosto também de pertencer a uma comunidade mais alargada, a dos povos falantes de língua portuguesa - aí sim: reforço a minha identidade histórica e cultural, numa imensa diversidade de culturas locais, entre o hemisfério norte e o hemisfério sul, espalhada pelos cinco cantos do mundo - gosto desta identidade enriquecida e múltipla, aberta e sempre disposta a conhecer o "outro", o diferente, conhecimento esse facilitado por falarmos e escrevermos uma mesma língua - mas com tantos significados tão diversos e diferentes. Tudo isto no meio das imensas contradições da história entre colonizados e colonizadores, entre explorados e explorados, entre ricos e pobres.

A carta que me enviaram desconhece que o Acordo Ortográfico (AO) é um acordo internacional, com uma história, que foi ratificado pela Assembleia da Republica em 2008 - ou seja, tem força de lei (veja-se a polémica a este propósito entre Vital Moreira e Vasco Graça Moura*). A todos os cidadãos se reconhece o direito de desobediência civil que é o que esta cidadã faz nesta carta, assumindo as respetivas consequências), mas vivemos ou não vivemos num estado de direito? A posição de uma cidadã (como a da carta) é igual à de um presidente de uma instituição pública, como o Centro Cultural de Belém, que segundo a comunicação social, retirou de todos os computadores o corretor ortográfico e decretou que lá se continuaria a utilizar a antiga grafia?

A maior parte dos especialistas que agora se pronunciam contra o AO estiveram "distraídos" durante os longos anos - 20 anos, segundo o Henrique Monteiro - em que esteve em discussão pública, à boa maneira portuguesa, deixaram passar o tempo e calaram-se.

Interessante é reparar a origem social de quem é contra o AO. A ortografia (note-se que a antiga ortografia tem uma fundamentação etimológica, que acaba por se tornar muito mais elitista), tal como a matemática, têm sido na escola, pela forma como são encaradas, fatores de discriminação e de exclusão social, aquilo a que os educadores críticos e os investigadores deste domínio denominam por "gate-keepers" e, tanto quanto percebo pelo que está em causa no AO, tudo o que venha contribuir para desfazer esses "gate-keepers", para simplificar a ortografia, para a tornar mais próxima do que se fala (perspetiva fonética), sou a favor.

A posição que assumo parte da minha própria experiência, que acima referi, enquanto aluna, mas sobretudo enquanto professora e investigadora.

Dois link interessantes sobre o AO e que me ajudaram a aprofundar a minha argumentação.


*) Os links para esta polémica encontram-se no artigo da Wikipedia que refiro - um artigo muito bem feito e completo.

P.S. - Uma amiga fez-me chegar este artigo do Henrique Monteiro, Diretor do Expresso, sobre esta questão, que também acho valer a pena ler: http://expresso.sapo.pt/o-acordo-20-anos-depois=f706306#ixzz1rv1Ev5kB

Actualizado às 14h25.

Referências:
- Ricardo, M.M.(2009)Breve História do Acordo Ortográfico. Revista Lusófona de Educação, 13, pp. 173 - 180. Recolhido em http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/rle/n13/13a11.pdf, consultado a 12 de Abril de 2012

- Wikipedia (2012). Acordo Ortográfico de 1990. Recolhido em http://pt.wikipedia.org/wiki/Acordo_Ortogr%C3%A1fico_de_1990, consultado a 12 de Abril de 2012

segunda-feira, abril 11, 2011

A crise e a «Pedagogia da Esperança» (Paulo Freire)

Ando a reler este grande mestre e pedagogo e deparei-me com o seguinte texto, que ele escreveu em 1992, pareceu-me que estava a ler algo para os dias de hoje:

«Por outro lado, deve haver um sem-número de pessoas pensando como um professor universitário amigo meu que me indagou, espantado: "Mas como, Paulo, uma Pedagogia da esperança no bojo de uma tal sem-vergonhice como a que nos asfixia hoje, no Brasil?"

É que a "democratização" da sem-vergonhice que vem tomando conta do país, o desrespeito à coisa pública, a impunidade se aprofundaram e se generalizaram tanto que a nação começou a se pôr de pé, a protestar. Os jovens e os adoslecentes também, vêm às ruas, criticam, exigem seriedade e transparência. O povo grita contra os testemunhos de desfaçatez. As praças públicas de novo se enchem. Há uma esperança, não importa que nem sempre audaz, nas esquinas das ruas, no corpo de cada uma e de cada um de nós. É como se a maioria da nação fosse tomada por incontida vontade de vomitar em face de tamanha desvergonha.
Por outro lado, sem sequer poder negar a desesperança como algo concreto e sem desconhecer as razões históricas, econômicas e sociais que a explicam, não entendo a existência humana e a necessária luta para fazê-la melhor, sem esperança e sem sonho. A esperança é a necessiade ontológica; a deseperança, esperança que, perdendo o endereço, se torna distorção da necessidade ontológica.
Como programa, a desesperança nos imobiliza e nos faz sucumbir no fatalismo onde não é possível juntar as forças indispensáveis ao embate recriador do mundo.
Não sou esperançoso por pura teimosia, mas por imperativo existencial e histórico.
Não quero dizer, porém, que, porque esperançoso, atribuo à minha esperança o poder de transformar a realidade e, assim, convencido, parto para o embate sem levar em consideração os dados concretos, materiais, afirmando que minha esperança basta. Minha esperança é necessária mas não é suficiente. Ela, só, não ganha a luta, mas sem ela a luta fraqueja e tibuteia. Precisamos da esperança crítica, como o peixe necessita de agua despoluída.
Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo. Mas, prescindir da esperança na luta para melhorar o mundo, como se a luta se pudesse reduzir a atos calculados apenas, à pura cientificidade, é frívola ilusão. Prescindir da esperança que se funda também na verdade como qualidade ética da luta é negar a ela um dos seus suportes funfamentais. O essencial, como digo mais adiante no corpo desta Pedagogia da esperança, é que ela, enquanto necessidade ontológica, precisa de ancorar-se na prática. Enquanto necessidade ontológica a esperança precisa da prática para tornar-se concretude histórica. É por isso que não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera pura, que vira, assim, espera vã
In Freire, P. (2003). Pedagogia da Esperança - Um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Editora Paz e Terra