segunda-feira, julho 25, 2011

«A vitória dos Rebeldes» - Iva Delgado (23/07/2011)

A vitória dos rebeldes

A sala do tribunal apinhada, os olhares que antes de se trocarem já se tocaram, o aperto no cotovelo, o beijo rápido, o sorriso escondido, o "vamos lá ver" sussurrado, a sensação de momento histórico, a presença inequívoca dos media, tudo isto se viveu no dia 22 de Julho de 2011, dia de leitura da sentença do caso " A Filha Rebelde".

A autora, serena e calma, era a imagem do equívoco gerado por este processo. A Margarida Fonseca Santos não cabe no papel de arguida, nem no de vítima, tampouco no de difamadora seja de quem for. Ela é a generosidade de alma, a criadora. Se alguma coisa se lhe pode atribuir de excessivo é a grandeza com que gere a sua arte, sem artifícios, genuinamente humana, centrada numa sensibilidade cândida.

A leitura da sentença durou uma eternidade, apesar da rapidez profissional do juiz. O esforço para captar o sentido das palavras, passada a floresta do emaranhado burocrático, a barreira das fórmulas processuais, o som não projectado da voz do juiz, o sorriso estéril da acusação não contribuíam para certezas prévias.

A meio da pilha de folhas lá se ia percebendo que a honra de uma pessoa só pode ser objecto de atentado se a pessoa for viva. Que a memória de alguém já falecido também tem questões normativas, que há prazos, limites, regras de jogo. Não é um qualquer familiar que por dá cá aquela palha se sente subitamente ofendido por palavras escritas em contexto ficcional, sobre um parente morto que é figura histórica. Tudo isso ia perpassando pelo que captámos da leitura do juiz. E muito mais, que quando um caso deixa dúvidas está em aberto para interpretações múltiplas, desde do ponto de vista histórico ao ficcional, passando pelo ensaístico, jornalístico e outros, que não se esgota no plano jurídico.

Uma frase, perfeitamente articulada, fixou-se como uma legenda iluminada: " A criação não é um risco, é um direito".

Nesse momento a Margarida estava ali, não porque escrevera uma peça sobre a filha do último director da PIDE, ofensiva para a memória e bom nome deste ( dando a entender que fora o mandante do assassinato de Humberto Delgado) mas sim porque exercera o seu direito de expressar-se livremente através da ficção sobre uma figura histórica. Estas não pertencem aos seus familiares, nem são património exclusivo de ninguém. O juiz assim deliberou, assim absolveu, assim se retomou a rota democrática que cabe à justiça defender. Os cravos vermelhos trazidos por alguém foram uma efusiva confirmação da força do 25 de Abril que derrotou os Silva Pais deste país.

Iva Delgado, Lisboa, em 23.07.2011.

quarta-feira, julho 06, 2011

«Uma rebelde» (Iva Delgado)

[No dia em que vão ser lidas as alegações finais no processo crime interposto pelos sobrinhos de Silva Pais contra Margarida Fonseca Santos, Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira.]

Assisti ao visionamento da peça "A Filha Rebelde", no âmbito do julgamento em curso. Já a tinha visto aquando da estreia. A autora, o encenador e o director do Teatro Nacional D. Maria II estão sob acusação de difamação do bom nome de Silva Pais, director da PIDE.

A objectividade em arte não existe, não se pretende através de uma peça de teatro absolver ou condenar seja quem for. A arte ultrapassa intenções. A verdade é que Annie podia ser qualquer jovem mulher saturada de uma vida cujo modelo lhe é transmitido por um marido enfadonho e autoritário, por um pai rigoroso, mas sentimental, uma mãe chata, rebarbativa, dominadora (soberbamente recriada por uma Lídia Franco no fio de navalha entre o dramático com aspas e o cómico - quando enxota um emissário do bilhete de avião é inexcedível).

Estes três elementos duma família podiam ter qualquer apelido, valeriam sempre enquanto personagens de teatro. O facto de haver sistemas políticos antagónicos (uma ditadura de direita e uma de esquerda) apenas exemplifica a "generation gap", ou pano de fundo ideológico, ou outro qualquer motivo de discórdia entre pais e filhos, neste caso nem é o essencial.

Há uma motivação pessoal em Annie.

Sente-se uma inútil como mulher de diplomata, como objecto de exposição acéfalo, flor decorativa de festas oficiais, sem direito a opinião própria, com estatuto obrigatório de esposa.

Quer trabalhar, ser útil, está sedenta por abraçar uma causa.

E deixa-se cativar pela revolução cubana e pelo seu ícone carismático Che Guevara. É óbvio que a paixão que se apodera de Annie sacrifica marido, pai, mãe e até pátria. Onde é que já ouvi, vi, li isto? É tema clássico.

Os nomes, as situações históricas, o próprio Salazar "perdoando" a Silva Pais os desvarios da filha, no contexto do drama maior da rebeldia de Annie, são o pano de fundo. Há na peça uma intemporalidade, uma existência aquém da realidade, uma transfiguração teatral que impede a apropriação duma interpretação unívoca, tautológica, processual.

Há uma infinidade de interpretações possíveis duma palavra, duma fala, duma cena, dum gesto ou ausência dele; tudo tem sentido na traumática apropriação da personagem pelo actor ou vice-versa. É o espectador quem verdadeiramente interpreta os significados múltiplos. Não existe a unilateralidade, a miopia da visão redutora, o magister dixit de um encartado que afirma: "alto! aqui na linha três, na viragem para a linha quatro, há delito!" Isso, só num regime de censura prévia.

A peça tem a sua vida própria, os seus momentos irrepetíveis, obedece a causalidades que não se esgotam no texto ou subtexto, no talento dos atores, na força telúrica do palco, no equilíbrio entre ficção e realidade, na possibilidade permanente de haver inversão de uma e outra. A arte é isso mesmo, liberdade criativa, de quem escreve, de quem representa, de quem é espectador.

Quando Silva Pais diz ao personagem Rosa Casaco: "abafem-me esse general" está a dizer o que lá está dito ou o que não está lá dito?

Quando Silva Pais, de roupão, doente, entabula diálogo com o passado, é um pai angustiado e patético ou a figura tenebrosa de polícia-mor de um regime opressivo? O pormenor do roupão, eis tudo.

Annie, de vestido vermelho, trágica, sem futuro, cancerosa, dança um adeus ao seu corpo triste. É a filha rebelde ou a mulher perante o seu destino?

O que não se compreende é que se gastem recursos pagos pelo contribuinte num processo judicial em que se acusa a autora de difamação da memória e bom nome de Silva Pais. Então acusem-me a mim e a todos os espectadores que não deixam à porta do teatro o espírito crítico, nem a bagagem histórica, nem a experiência pessoal. E das duas uma: ou já sabiam ou ficaram a saber. Ou então nada perceberam.

Iva Delgado

Link para o site da Fundação Humberto Delgado - http://www.humbertodelgado.pt/WebFHD/index.jsp

No FaceBook - https://www.facebook.com/notes/humberto-delgado/uma-rebelde/251433984870663

sábado, julho 02, 2011

Análise de Rui Vieira Nery - sobre o processo «A Filha Rebelde»

Publicado no grupo a 30/06/2011
http://www.facebook.com/home.php?sk=group_218651868154749&ap=1

«Tudo é assustador neste processo escabroso. Em primeiro lugar, naturalmente, a própria tese de fundo de que o dirigente principal da polícia política do fascismo não é responsável pelos actos da corporação que dirige, mesmo quando não os executou pessoalmente. Depois a ideia de que como o primeiro processo que lhe foi instaurado ficou sem efeito pela morte do arguido isso equivale a uma absolvição. A juntar a isso o princípio de que o direito à imagem pode sobrepor-se de forma absoluta e ilimitada a todos os outros direitos legítimos em presença (liberdade de expressão, liberdade de criação artística, direito à informação, interesse público, etc.). Em seguida, o próprio efeito de pressão ilegítima que a simples admissão do processo exerce sobre os criadores, os historiadores, os editores e os produtores relativamente a futuras ocasiões em que possam vir a ser confrontados com situações como esta. E por último porque se insere numa tendência mais geral muito preocupante para tentar branquear o carácter intrinsecamente ilegítimo e criminoso do Estado Novo e dos seus agentes, envolvendo-o numa ilusão de "normalidade" desculpabilizadora.»