... quanto do teu sal são lágrimas de Portugal. (Fernando Pessoa)
[...how much of your salt are tears of Portugal. (Fernando Pessoa]
quinta-feira, março 31, 2011
Ó mar salgado ... [Oh! salted sea ...]
quarta-feira, março 30, 2011
sábado, março 26, 2011
quarta-feira, março 23, 2011
domingo, março 20, 2011
sexta-feira, março 18, 2011
quarta-feira, março 16, 2011
A crise, o euro e a importância da memória ...
In PÚBLICO, 16/03/2011
E se a ameaça ao euro fosse política?
Por Inês de Medeiros
Tão segura que está da sua superioridade democrática, a Europa hesita em assumir-se como um espaço de unidade
Foi notícia de abertura dos telejornais e capa dos jornais franceses: Marine Le Pen, a nova líder da extrema-direita francesa, surge em primeiro lugar nas intenções de voto para as presidenciais de 2012. 23% dos seus eleitores dizem-se próximos da extrema-esquerda e 36% sem filiação partidária. Faltam ainda dados sobre os abstencionistas que poderiam deixar de o ser... O sucesso crescente da extrema-direita que se quer nacionalista e sócia é, pois, inegável.
No contexto actual, seria um erro lidar com estas notícias como se de política interna francesa se tratasse.
A Europa sempre precisou do pacto franco-alemão para avançar e a senhora Le Pen é muito clara na sua visão da Europa: a Europa de Bruxelas é inimiga do Estado-nação, faz parte do "complô" da globalização - por isso promove a imigração clandestina - e constrói-se contra a vontade soberana dos povos. A solução para a crise, que também atinge a França, é, pois, simples: a saída imediata da zona euro.
Marine Le Pen não está sozinha. Um pouco por toda a Europa temos assistido apaticamente à subida ao poder de movimentos eurocépticos cada vez mais radicais. Suécia, Holanda, Itália, Hungria, Finlândia já têm que lidar com a extrema-direita no poder. E mesmo alguns sectores alemães já consideram a chanceler Angela Merkel demasiado liberal e europeísta.
Fala-se muito da pressão dos mercados sobre o euro, mas ecoa o silêncio quando se trata de avaliar a ameaça política. Aliás, o discurso político pura e simplesmente desapareceu. A estes movimentos mais extremistas basta, pois, colmatar esta falta. Populismo? Demagogia? Má política? Certamente. Mas eficaz e perigosa resposta à aridez e à desumanidade do discurso financeiro dominante.
E o que é o "nacionalismo social" (nacional socialismo?) que a senhora Le Pen defende?
Fidelizado que está o seu eleitorado mais racista e xenófobo, a senhora Le Pen pode dedicar-se ao eleitorado mais à esquerda. Assume-se como uma antiliberal convicta: contra os bancos, contra a especulação financeira, contra o clientelismo. Denuncia a distância entre as elites e o povo; defende os serviços e funcionários públicos, os grandes investimentos do Estado e promove o enxovalho indiscriminado da classe política. No actual contexto de crise, é óbvio que este discurso encontra terreno fértil. Mas em dimensões que até surpreendem os partidos e organizações historicamente mais contestatários.
Ninguém hesitou em comparar a actual crise com a crise de 1929, mas poucos querem relembrar as consequências da mesma: o exacerbar das rivalidades económicas entre os Estados, o crescimento exponencial dos nacionalismos mais ferozes. A atitude sobranceira de certos países do Norte da Europa em relação aos "malcomportados" do Sul, que condenam à recessão como acção punitiva, será mera coincidência ?
Conviria talvez lembrar que a esclerose de mecanismos de regulação política em muito contribuiu para os dois grandes conflitos mundiais do século XX. Que a criação de uma Comunidade Europeia permitiu a paz durante mais de 50 anos, substituindo a concorrência entre Estados pela cooperação e solidariedade entre povos.
Tão segura que está da sua superioridade democrática e, apesar da equiparação 1929-2007, a Europa hesita em assumir-se como um espaço de unidade, omite os princípios que estiveram na sua origem e age como se de uma mera junção ocasional de interesses dos Estados se tratasse. Ameaças aos regimes democráticos só do outro lado do Mediterrâneo!
No entanto, o discurso da senhora Le Pen tem o mérito da pouca ambiguidade. Defende um Estado forte mas que tenha, e passo a citar, "os instrumentos técnicos e legais que assegurem o seu poder". Vindo de quem vem, teme-se o pior. E, para que não haja dúvidas, fala da escola pública como instrumento essencial para a construção de um Homem Novo.
O Presidente da República, no seu polémico discurso, apelou a um sobressalto cívico. Apesar de não duvidar das profundas convicções democráticas do Prof. Cavaco Silva, conviria talvez esclarecer em que sentido, pois o que não falta actualmente por essa Europa fora são movimentos a fazerem o mesmo apelo, mas pelas piores razões e com as mais duvidosas das intenções. Actriz, deputada pelo PS
E se a ameaça ao euro fosse política?
Por Inês de Medeiros
Tão segura que está da sua superioridade democrática, a Europa hesita em assumir-se como um espaço de unidade
Foi notícia de abertura dos telejornais e capa dos jornais franceses: Marine Le Pen, a nova líder da extrema-direita francesa, surge em primeiro lugar nas intenções de voto para as presidenciais de 2012. 23% dos seus eleitores dizem-se próximos da extrema-esquerda e 36% sem filiação partidária. Faltam ainda dados sobre os abstencionistas que poderiam deixar de o ser... O sucesso crescente da extrema-direita que se quer nacionalista e sócia é, pois, inegável.
No contexto actual, seria um erro lidar com estas notícias como se de política interna francesa se tratasse.
A Europa sempre precisou do pacto franco-alemão para avançar e a senhora Le Pen é muito clara na sua visão da Europa: a Europa de Bruxelas é inimiga do Estado-nação, faz parte do "complô" da globalização - por isso promove a imigração clandestina - e constrói-se contra a vontade soberana dos povos. A solução para a crise, que também atinge a França, é, pois, simples: a saída imediata da zona euro.
Marine Le Pen não está sozinha. Um pouco por toda a Europa temos assistido apaticamente à subida ao poder de movimentos eurocépticos cada vez mais radicais. Suécia, Holanda, Itália, Hungria, Finlândia já têm que lidar com a extrema-direita no poder. E mesmo alguns sectores alemães já consideram a chanceler Angela Merkel demasiado liberal e europeísta.
Fala-se muito da pressão dos mercados sobre o euro, mas ecoa o silêncio quando se trata de avaliar a ameaça política. Aliás, o discurso político pura e simplesmente desapareceu. A estes movimentos mais extremistas basta, pois, colmatar esta falta. Populismo? Demagogia? Má política? Certamente. Mas eficaz e perigosa resposta à aridez e à desumanidade do discurso financeiro dominante.
E o que é o "nacionalismo social" (nacional socialismo?) que a senhora Le Pen defende?
Fidelizado que está o seu eleitorado mais racista e xenófobo, a senhora Le Pen pode dedicar-se ao eleitorado mais à esquerda. Assume-se como uma antiliberal convicta: contra os bancos, contra a especulação financeira, contra o clientelismo. Denuncia a distância entre as elites e o povo; defende os serviços e funcionários públicos, os grandes investimentos do Estado e promove o enxovalho indiscriminado da classe política. No actual contexto de crise, é óbvio que este discurso encontra terreno fértil. Mas em dimensões que até surpreendem os partidos e organizações historicamente mais contestatários.
Ninguém hesitou em comparar a actual crise com a crise de 1929, mas poucos querem relembrar as consequências da mesma: o exacerbar das rivalidades económicas entre os Estados, o crescimento exponencial dos nacionalismos mais ferozes. A atitude sobranceira de certos países do Norte da Europa em relação aos "malcomportados" do Sul, que condenam à recessão como acção punitiva, será mera coincidência ?
Conviria talvez lembrar que a esclerose de mecanismos de regulação política em muito contribuiu para os dois grandes conflitos mundiais do século XX. Que a criação de uma Comunidade Europeia permitiu a paz durante mais de 50 anos, substituindo a concorrência entre Estados pela cooperação e solidariedade entre povos.
Tão segura que está da sua superioridade democrática e, apesar da equiparação 1929-2007, a Europa hesita em assumir-se como um espaço de unidade, omite os princípios que estiveram na sua origem e age como se de uma mera junção ocasional de interesses dos Estados se tratasse. Ameaças aos regimes democráticos só do outro lado do Mediterrâneo!
No entanto, o discurso da senhora Le Pen tem o mérito da pouca ambiguidade. Defende um Estado forte mas que tenha, e passo a citar, "os instrumentos técnicos e legais que assegurem o seu poder". Vindo de quem vem, teme-se o pior. E, para que não haja dúvidas, fala da escola pública como instrumento essencial para a construção de um Homem Novo.
O Presidente da República, no seu polémico discurso, apelou a um sobressalto cívico. Apesar de não duvidar das profundas convicções democráticas do Prof. Cavaco Silva, conviria talvez esclarecer em que sentido, pois o que não falta actualmente por essa Europa fora são movimentos a fazerem o mesmo apelo, mas pelas piores razões e com as mais duvidosas das intenções. Actriz, deputada pelo PS
«Publicidade Invasiva - a crise, tal como o sol, é para todos?»
O que conta mais no jornalismo? ... a publicidade? ... a informação: as notícias e artigos escritos pelos jornalistas?
Depende dos dias e da crise.
«O sol quando nasce é para todos!» ...
Com a publicidade a tomar a primazia sobre as notícias e o jornalismo, como hoje acontece ao ler o PÚBLICO on-line de que sou assinante (ou seja, para o qual pago! ...)
... hoje percebi ... que também a crise ... é para todos, até para a SONAE!! ... e por isso hoje, em vez das notícias, temos CONTINENTE!! CONTINENTE!! CONTINENTE!!
... ou seja, sinto que estou a pagar a dobrar e que me estão a ir ao bolso!
Inqualificável!!
P.S. - Reclamação que acabo de enviar à Directora do PÚBLICO.
Depende dos dias e da crise.
«O sol quando nasce é para todos!» ...
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... hoje percebi ... que também a crise ... é para todos, até para a SONAE!! ... e por isso hoje, em vez das notícias, temos CONTINENTE!! CONTINENTE!! CONTINENTE!!
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Inqualificável!!
P.S. - Reclamação que acabo de enviar à Directora do PÚBLICO.
segunda-feira, março 14, 2011
sexta-feira, março 11, 2011
terça-feira, março 08, 2011
segunda-feira, março 07, 2011
Frei Bento: «Construir sobre a rocha ou sobre a areia»

Nesta «construção» permanente a que somos convidados, sobretudo em tempos de crises e convulsões, como os que vivemos ...
«Construir sobre a rocha ou sobre a areia»
Por Frei Bento, in PÚBLICO, 6/03/2011
No Carnaval, as máscaras servem para cobrir as máscaras de todos os dias. A Quaresma deve servir para as arrancar
1. Não se lêem os textos do Evangelho como tratados de qualquer ciência ou técnica. Como textos simbólicos que são, foram escritos para dizer outra coisa. Quando, hoje na missa, São Mateus põe na boca de Jesus as vantagens de construir sobre a rocha e os inconvenientes de edificar sobre a areia, ninguém espera, dali, um manual de construção civil. Mas que poderá e deverá esperar? Qual é a construção sobre a rocha a que Jesus se refere?
De uma forma imediata, e usando a resposta mais convencional e disponível, poderíamos dizer que é a construção da nossa vida sobre a Palavra de Deus, supostamente contida na Bíblia. Aliás, a primeira leitura pertence a um sermão de Moisés, o grande profeta: "As palavras que vos digo gravai-as no vosso coração e na vossa alma, atai-as à mão como um sinal e sejam como um frontal entre os vossos olhos... Procurai pôr em prática os preceitos e normas que, hoje, vos proponho" (Dt 11, 18.26-28.32). São palavras que se tornam corpo na vida e fazem caminhar na justiça.
Para além do que a biologia ou as neurociências investigam acerca da condição humana - e sobre isso não se deve pedir nada à Bíblia ou à teologia -, a metáfora "Palavra de Deus" significa que nós somos, de forma misteriosa, a preocupação de Deus e que o ser humano, animal de palavras, pode escutar aquelas que o interrogam sobre o sentido radical da vida: de onde vimos, para onde vamos e que andamos aqui a fazer. Sob o ponto de vista bíblico, o ser humano só desenvolve a sua humanidade na relação com a transcendência, na religação com Deus, com os outros e, de forma harmoniosa, com a natureza, numa religião cosmoteândrica, na linha de Raimon Panikkar (1).
2. Jesus nota que as palavras de Moisés continuavam a encher a boca dos seus contemporâneos, mas não criavam raízes na alma nem no coração. Alimentavam uma religião de magia verbal que ele denuncia: "Nem todo o que diz "Senhor, Senhor" entrará no reino dos céus, mas só aquele que faz a vontade do meu Pai."
Acabará por fundamentar esta denúncia: "Os doutores da Lei e os fariseus instalaram-se na cátedra de Moisés. Fazei, pois, e observai tudo o que eles disserem, mas não imiteis as suas obras, pois eles dizem e não fazem."
Até aqui, esta recomendação vai servir para um adágio popular que atravessará os tempos: "Bem fala Frei Tomás! Fazei o que ele diz, não o que ele faz."
Jesus não fica por aí. Ataca os doutores e os fariseus pelas perversões interpretativas que acabam por "colocar fardos pesados e insuportáveis aos ombros dos outros, mas eles nem com um dedo lhes tocam". Este é o resultado da substituição da complexidade da experiência humana, religiosa e cristã pela invocação de Deus em vão.
Tudo pode ser pervertido. Quando Moisés, para garantir, no quotidiano, a presença da palavra divina, propõe "Atai as palavras à mão como um sinal e que sejam como um frontal entre os vossos olhos", em vez de um alerta, de um aviso, forja-se um amuleto, um instrumento de propaganda, de auto-elogio, anulando a simbólica religiosa:
"Tudo o que fazem é com o fim de se tornarem notados pelos homens. Por isso, alargam as filactérias e alongam as orlas dos seus mantos. Gostam de ocupar o primeiro lugar nos banquetes e os primeiros assentos nas sinagogas. Gostam das saudações nas praças públicas e de serem chamados "mestres" pelos homens" (Cf. Mt 23, 1-7).
3.É um exercício demasiado simples - e algo perverso - ler os textos do Novo Testamento, deslocando o olhar e o ouvido para "aquele tempo", para há dois mil anos, observando o ridículo do ritualismo que Jesus critica na religião dos seus contemporâneos, ou procurando equivalentes no judaísmo rabínico mais ortodoxo. Se não se tratar de uma investigação histórica - que tem as exigências do seu método -, mas apenas de uma apreciação religiosa, estaremos a reproduzir o farisaísmo que Jesus criticou. Nesse caso, o Evangelho deixa de pertencer às novidades que permanecem novas, como se fosse criado neste instante, deixa de nos interpelar, de nos pôr em causa, de ser uma luz sobre o nosso tempo e sobre as nossas motivações, para se tornar um véu sobre a realidade. Criticamos aquele legalismo ritual e os seus amuletos, mas, por vezes, repetimos e criamos algo ainda mais ridículo: certas normas jurídicas e litúrgicas, rituais, roupas de papas, bispos, padres, religiosos, alfaias litúrgicas, imagens, "devoções", etc., como se tudo isso fosse vontade de Deus. Jesus critica os amuletos que substituíam a responsabilidade ética e social, a rectidão do coração e das obras.
Na literatura teológica, uns perguntam qual será o futuro do cristianismo; outros, qual será o futuro da religião; outros ainda, qual será o futuro da Europa, mas agora todos perguntam qual será o futuro de um mundo em convulsão. Como diria Ortega y Gasset, "o que verdadeiramente se passa é que não sabemos o que nos passa".Tanto as religiões como as ideologias seculares não podem evitar a pergunta: que se passa connosco? Que bases e que desígnios presidem às nossas construções?
No Carnaval, as máscaras servem para cobrir as máscaras de todos os dias. A Quaresma deve servir para as arrancar e encontrar o Rochedo que nenhuma tempestade poderá abalar.
1) Cf. Opera Omnia Raimon Panikkar, Fragmenta, Barcelona
domingo, março 06, 2011
«A responsabilidade social das empresas é mera retórica»
Muito interessante!! Não posso deixar de partilhar aqui ...
In PÚBLICO, 6/03/2011
Por António Brochado Correia
A geração que está agora a sair das faculdades quer ganhar bem, mas não a todo o custo. É uma geração com consciência
Deveria ter colocado um ponto de interrogação no final do título deste artigo? A resposta depende de onde se situa o leitor após ter lido um artigo publicado por Michael Porter e Mark Kramer no Harvard Business Review de Fevereiro, intitulado The big idea: creating shared value.
Os autores preocupam-se com a distância cada vez mais evidente entre o mundo dos negócios e a sociedade em geral. Mesmo em Harvard - provavelmente o berço dos gestores mais importantes do mundo - essa consciência existe, uma vez que os seus estudantes têm questionado o fim do sistema capitalista. Não é que, de repente, tenham virado à esquerda, mas sentem-se cada vez mais envergonhados pela retórica das empresas face às realidades evidentes. A CSR (corporate social responsibility) pode ser interpretada como um factor que contribui para esta distância entre o que as empresas projectam para o exterior e o seu real impacto.
Há muitos líderes de empresas, incluindo em Portugal, que entenderam, pelas suas convicções pessoais, que a CSR é uma forma de contribuir positivamente para a sociedade. Empenharam-se neste caminho, porque consideram que os projectos que apoiaram são valiosos. Ninguém - nem Michael Porter nem Mark Kramer - coloca isso em dúvida. Boas acções, independentemente de onde se originam, são louváveis. Contudo, uma CSR à margem da actividade da empresa não passa de mera retórica. Efectivamente, como referem os autores, é como se a empresa em questão argumentasse: "Vou continuar a desenvolver a minha actividade (que passa por explorar, poluir, etc.) e, em compensação, vou fazer boas acções para calar os nossos críticos."
É possível que um líder de uma empresa fique perturbado ao pensar que as suas boas acções possam ser interpretadas com tanto cinismo. Mas não deverá sentir-se assim. A CSR deu um importante contributo, mas agora é altura de passar ao próximo nível. Por exemplo, a geração que está agora a sair das faculdades quer ganhar bem, mas não a todo o custo. É uma geração com consciência e com a ideia de que as suas escolhas afectam definitivamente o statu quo. São os futuros quadros das empresas (para os recrutar, é preciso entendê-los) e os consumidores de amanhã (bastante mais informados).
Mas existe outra vertente igualmente importante. Não se pode tratar a criação de valor como um zero sum game. Ou seja, criar valor não é sinónimo de poluir ou explorar (e quanto menos uma empresa polui ou explora, menos valor cria). É fundamental que entendamos que, pela reengenharia de vários elementos ao nível do core business, podemos simultaneamente fazer o bem (ou pelo menos fazer menos mal) para a sociedade e criar valor para os accionistas. Há um enorme potencial para win-win.
De alguma forma, nada disto é novo - trata-se de uma abordagem da adopção de sustentabilidade como mainstream. Mas o facto de estes professores da Harvard Business School proporem o fim das tréguas torna esta questão mais relevante. Será que a responsabilidade social das empresas é mera retórica? Partner da PwC
In PÚBLICO, 6/03/2011
Por António Brochado Correia
A geração que está agora a sair das faculdades quer ganhar bem, mas não a todo o custo. É uma geração com consciência
Deveria ter colocado um ponto de interrogação no final do título deste artigo? A resposta depende de onde se situa o leitor após ter lido um artigo publicado por Michael Porter e Mark Kramer no Harvard Business Review de Fevereiro, intitulado The big idea: creating shared value.
Os autores preocupam-se com a distância cada vez mais evidente entre o mundo dos negócios e a sociedade em geral. Mesmo em Harvard - provavelmente o berço dos gestores mais importantes do mundo - essa consciência existe, uma vez que os seus estudantes têm questionado o fim do sistema capitalista. Não é que, de repente, tenham virado à esquerda, mas sentem-se cada vez mais envergonhados pela retórica das empresas face às realidades evidentes. A CSR (corporate social responsibility) pode ser interpretada como um factor que contribui para esta distância entre o que as empresas projectam para o exterior e o seu real impacto.
Há muitos líderes de empresas, incluindo em Portugal, que entenderam, pelas suas convicções pessoais, que a CSR é uma forma de contribuir positivamente para a sociedade. Empenharam-se neste caminho, porque consideram que os projectos que apoiaram são valiosos. Ninguém - nem Michael Porter nem Mark Kramer - coloca isso em dúvida. Boas acções, independentemente de onde se originam, são louváveis. Contudo, uma CSR à margem da actividade da empresa não passa de mera retórica. Efectivamente, como referem os autores, é como se a empresa em questão argumentasse: "Vou continuar a desenvolver a minha actividade (que passa por explorar, poluir, etc.) e, em compensação, vou fazer boas acções para calar os nossos críticos."
É possível que um líder de uma empresa fique perturbado ao pensar que as suas boas acções possam ser interpretadas com tanto cinismo. Mas não deverá sentir-se assim. A CSR deu um importante contributo, mas agora é altura de passar ao próximo nível. Por exemplo, a geração que está agora a sair das faculdades quer ganhar bem, mas não a todo o custo. É uma geração com consciência e com a ideia de que as suas escolhas afectam definitivamente o statu quo. São os futuros quadros das empresas (para os recrutar, é preciso entendê-los) e os consumidores de amanhã (bastante mais informados).
Mas existe outra vertente igualmente importante. Não se pode tratar a criação de valor como um zero sum game. Ou seja, criar valor não é sinónimo de poluir ou explorar (e quanto menos uma empresa polui ou explora, menos valor cria). É fundamental que entendamos que, pela reengenharia de vários elementos ao nível do core business, podemos simultaneamente fazer o bem (ou pelo menos fazer menos mal) para a sociedade e criar valor para os accionistas. Há um enorme potencial para win-win.
De alguma forma, nada disto é novo - trata-se de uma abordagem da adopção de sustentabilidade como mainstream. Mas o facto de estes professores da Harvard Business School proporem o fim das tréguas torna esta questão mais relevante. Será que a responsabilidade social das empresas é mera retórica? Partner da PwC
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