sexta-feira, março 20, 2009

Menina de Olinda - Palavras Sábias de Jean-Yves Leloup

Pergunta: Uma menina de nove anos é estuprada pelo padrasto e engravida. A justiça e a medicina concordam que ela não sobreviveria à gestação e concordam com o aborto. Os arcebispos de Olinda excomungam todos os envolvidos no aborto desde a diretora do hospital ao motorista da ambulância, a enfermeira que desinfeta os instrumentos, médicos e a mãe da menina. Em sua opinião, como reatar a conexão com o Divino neste ato da Igreja Católica?

Jean-Yves Leloup: Nós poderíamos perguntar o que teria feito Cristo. Eu acho que Ele não teria escutado nem o juiz nem o arcebispo, Ele teria ido ver a menina para cuidar dela e escutar, naquele momento, aquilo que a Vida estaria Lhe inspirando.

É claro que se a vida da mãe e a vida da criança estão em perigo é preciso escolher que um dos dois sobreviva, se os dois não podem sobreviver. Depois, é preciso escutar o sofrimento desta menina e, o que pode ser ainda mais difícil, saber o que conduziu o padrasto a esta atitude.

Contudo, tanto em um caso como em outro, nós não estamos em uma atitude de julgamento, em uma atitude onde devamos fazer isto ou aquilo. Trata-se de escutar a pessoa que está sofrendo, escutar aquilo que a Vida deseja nela, pois a vontade de Deus é a vontade da Vida que quer viver.

Como não acrescentar sofrimento ao sofrimento? O que pode nos parecer dramático é o fato da culpa ser acrescentada ao sofrimento - acrescentamos mal ao mal....

No Evangelho, nós nunca vimos Jesus excomungando alguém e, antes de tudo, será que é possível excomungar alguém? O diabo não pode nos separar de Deus se permanecermos fiéis à Sua Presença. Se o diabo não pode nós separar de Deus, um arcebispo também não!

Confesso que há alguma coisa que eu não compreendo nisto tudo: é este encadeamento de excomunhões. Se eu estivesse de mau humor, eu diria que a única pessoa que o arcebispo não excomungou é o padrasto que é o culpado...
No entanto, não é essa a questão. Nenhuma igreja, nenhum ser humano tem o poder de nos excomungar: Nós não podemos separar um ser da Fonte do Ser, não podemos separar a consciência da Fonte da Consciência, mas podemos envenenar e perturbar a vida dos outros...

Isso é grave. Normalmente, a função da igreja não é a de nos envenenar a vida, mas a de curar o nosso sofrimento, de aliviar a nossa dor. Aliviar a dor dessa menina, aliviar a dor daqueles que a cercam e não culpabilizar aqueles que estão tentando ajudá-la, pelo contrário, ajudá-los no seu discernimento para saberem o que é melhor para essa menina.

Essa é a função da igreja. Não é sua função condenar ou excomungar, senão ela se tornará uma instituição como qualquer outra que está a serviço do poder e o poder sobre as almas é algo muito perigoso, mais perigoso do que o poder sobre os corpos. É por isso que sempre é bom voltarmos aos Evangelhos ou, simplesmente, voltar ao nosso coração e não nos deixarmos impressionar por leis externas, mesmo as leis religiosas. A lei a qual obedecemos é a lei da Vida e o espírito que está em nós é o Espírito da Vida. É isso que dirá São Paulo. Não dependemos mais de leis externas. Trata-se de escutar a Vida em nós, de escutarmos a Luz em nós, de escutar o Amor em nós, de escutar a Presença do Eu Sou que É porque aí está o discernimento. No entanto, algumas vezes é preciso coragem para encarar estas instituições que talvez estejam se esquecendo dessa dimensão do ser. Muitas vezes, estas instituições são vítimas de suas próprias ideologias.

É interessante escutar os argumentos do arcebispo de que não devemos destruir a vida. Mas vocês podem sentir que a sua teoria está separada da realidade. Seus grandes princípios, que não são ruins, esquecem aquele caso em particular. E existem apenas casos particulares. Não podemos legislar de uma maneira geral porque o amor é sempre o amor por um caso em particular. O que é verdadeiro para um pode não ser verdadeiro para o outro. A nossa prática de meditação pode nos ajudar a nos tornar atentos a essa via interna, a essa lei interna, que não julga a priori, nem com princípios políticos, nem com princípios médicos, nem com princípios religiosos, mas que está em contato com a Realidade; que escuta o que a Vida em outra pessoa e o que a Vida em nós pede.

Talvez essa seja a condição para execermos um ato justo, uma condição que deixe o nosso coração em paz mesmo que, à nossa volta, nós não compreendamos. É importante o critério dessa paz interna, esse sinal de que existe uma unidade no interior de nós mesmos.

Penso nas palavras de São Serafim de Sarov: "Encontre a paz no interior de você mesmo e uma multidão será salva ao seu lado..."

Ache a paz no interior de você mesmo e você descobrirá o gesto justo que não vai ser uma ideologia, ou um grande princípio, mas o respeito pela Vida na sua fragilidade e na sua vulnerabilidade.

Teríamos muito a dizer sobre todas essas suas questões, mas o que eu acho importante é que cada um descubra a resposta que vem do seu interior. Ninguém tem o direito de pensar no seu lugar. O papel de um ensinamento, o papel de uma comunidade ou de uma igreja não é dizer o que devemos fazer, aquilo que é bom e o que é ruim, mas de nos dar elementos para esclarecer o nosso discernimento, para que nós nos tornemos inteligentes, uma inteligência esclarecida e iluminada pela compaixão.

Página de Jean-Yves Leloup: http://www.jeanyvesleloup.com/

domingo, março 15, 2009

Crescimento económico e desenvolvimento

PÚBLICO, 15/03/2009 Faranaz Keshavjee*

A ética cosmopolita que respeita a todos e a todos pede participação foi pelo cano abaixo Em Évora, em 2006, Sua Alteza o Aga Khan IV falou sobre democracias que podem ser bem sucedidas. Infelizmente, líder de uma minoria religiosa e de uma religião ainda muito estigmatizada e profundamente desconhecida, passou despercebido do público em geral o conteúdo de uma mensagem que continua actual. Para os interessados remeto para a leitura atenta na Net: www.akdn.org/speeches_detail.asp?id=228. Mais do que um líder religioso, trata-se de um pensador dos tempos actuais que merece atenção.
Muitas vezes se tem referido que a Índia é uma das maiores democracias do mundo e que o Paquistão não consegue aceitar este facto sem alguma inveja. Não me posiciono em nenhuma das partes, mas, depois de ter visto o filme Quem Quer Ser Bilionário e de ter lido o White Tiger, de Aravind Adiga, percebo que, se a Índia se posiciona no patamar das maiores economias de sucesso mundiais, já não posso dizer o mesmo do seu sistema democrático nem do desenvolvimento das suas sociedades. Um exemplo marcante, para mim, foi ver aqueles dois irmãos sentados num arranha-céus em construção olhando para as suas vidas e recordando a passagem de Bombaim para Mumbai. A cidade mudou, cresceu, enriqueceu, e um deles também o conseguiu. No entanto, o sistema de castas nunca mudou. O chai wala (o moço dos chás) nunca deixará de carregar o estigma social, por melhor que venha a ser a sua situação socioeconómica. Ram e Allah continuam a lutar, e por isso a mãe dos dois perdeu a vida. No final do filme, e porque são muçulmanos, um deles afirma "Deus é Grande". Deus não é grande. A sociedade sim, podia sê-la, se ao menos se recordasse da ética preconizada pelo Deus que os encaminhou para a fé, a justiça, a equidade, a consciência social.
Estima-se que 40% dos países representados nas Nações Unidas são democracias falhadas. O que falta então para fazer as democracias funcionar? No tal discurso a que me referi antes encontram-se as respostas.
De todas, a que mais importa - para além da contribuição de uma sociedade civil forte, de uma ética de democracia pluralista, onde todos se revejam nas políticas públicas -, é preciso, fundamentalmente, desenvolver padrões de educação que promovam o desenvolvimento. Precisamos de "uma educação rigorosa, responsável e relevante. Precisamos de fazer um melhor trabalho na formação dos líderes; de moldar as instituições para que venham ao encontro de desafios de cada vez maior competência e de níveis de excelência sempre mais elevados. Isto significa ir para além da noção de mais educação, de mais tempo a aprender a formalidade escolar. Temos de acompanhar a nossa preocupação de quantidade com uma elevada aspiração para a qualidade. Serão os curricula que ensinamos relevantes para os problemas complexos do futuro? Estaremos a dar uma educação de século XX aos líderes do século XXI?", questiona o Aga Khan.
Um dos maiores desafios desta crise económica, que a meu ver já vivemos há alguns anos em Portugal e que agora virá a agravar-se com a crise internacional, coloca o desafio nos conceitos de crescimento e desenvolvimento. O grande paradigma da actualidade tem que ver com a ênfase excessiva no crescimento e a negligência no domínio do pensamento e da reflexão; no desenvolvimento das capacidades humanas para enfrentar momentos como este.
Vemos que as fórmulas económicas não resultam porque a sociologia e as humanidades, a ética cosmopolita que respeita a todos e a todos pede participação, foram pelo cano abaixo. Quisemos criar universidades-empresas. Preterimos as universidades de reflexão, do Grande Diálogo, onde a controvérsia pudesse ter lugar, onde as sensibilidades e as valências dos diferentes, das alteridades, pudessem tomar assento também.
No contexto que é o português, onde o universo social é cada vez mais cosmopolita, valia a pena repensar os líderes que queremos ter amanhã. Mais do que discutir vias de comunicação de alta tecnologia, instrumentos informáticos que nos ponham mais no centro do mundo, era preciso colocar os pequenos pensadores - os líderes deste século - no centro do pensamento universal; ajudar as crianças, desde pequeninas, a encontrar a alteridade e a saber lidar com esse grande diálogo que é aprender com humanismo e humanidade. Nesse encontro o sujeito torna-se parte do cosmos. Pode participar em democracias de crescimento porque cresceu, desenvolvendo-se. Estudiosa de temas islâmicos

Nota: O sublinhado é meu.

quarta-feira, março 11, 2009

Sobre as TIC na Educação: Banco Mundial em 2003

«They can vastly increase the information resources available to learners, thereby changing the relationship between teacher and student. They can facilitate collaborative learning and provide rapid feedback to learners. These outcomes do not emerge simply through the introduction of computers into the learning setting, however. An appropriate policy framework is needed in which ICTs are used to tackle educational problems; significant investment is made in training teachers and managers to change their knowledge and behaviour; qualified technicians and support staff are available; and funding for maintenance, access to the Internet, and upgrading is sustainable. These conditions are rarely meet, especially in developing countries », The World Bank, (2003: 20)

In World Bank, (2003). Lifelong Learning in the Global Knowledge Economy. Challenges for Developing Countries. A world Bank Report. Washington, D.C.: The World Bank