Costa Atlântica, março 2016
quarta-feira, março 30, 2016
quinta-feira, março 24, 2016
"um só poema" #4
Metamorfoses da casa
Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.
A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.
Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.
Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.
Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.
Eugénio de Andrade
Mosteiro de Nossa Senhora Vestida de Sol, dezembro 2014
quarta-feira, março 23, 2016
"Um só poema" #3
Imagino o sabor dos seus lábios
E quase que aposto
Sem medo de errar
Que têm um gosto adocicado
Difícil de encontrar
Mena Sancho
E quase que aposto
Sem medo de errar
Que têm um gosto adocicado
Difícil de encontrar
Mena Sancho
Braga, junho 2014
terça-feira, março 22, 2016
"Um só poema" #2
A casa começa com uma escada íngreme
Deus abençoe quem vier por bem
À direita há a sala de jantar com a moldura de um bisavô
a mesa de madeira escura
Deus abençoe quem vier por bem
À direita há a sala de jantar com a moldura de um bisavô
a mesa de madeira escura
sopa prato e fruta
Foste embora e a casa ficou escura
Imagino à noite o silêncio dos objetos
Onde antes havia uma máquina de costura
Foste embora e a casa ficou escura
Imagino à noite o silêncio dos objetos
Onde antes havia uma máquina de costura
a televisão ligada nas notícias
um mastigar vagaroso
agora existe noite e pó
A nossa casa ficou sozinha
A nossa casa ficou sozinha
Joana Cabral
Lisboa, dezembro 2015
segunda-feira, março 21, 2016
"Um só poema" #1 (corrente de poesia)
As mãos (Manuel Alegre)
Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.
Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
Paris, Museu Rodin, junho 2008
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