domingo, fevereiro 07, 2010

«Força»

Ontem, depois de mais um susto, desta vez pregado pelo meu coração, recebo esta prenda de «Boas Vindas» de um amigo. Aqui fica com um grande beijo agradecido, António.



Woman and Her Hands

(By Asuman and Atanur Dogan - http://www.doganart.com/)

Maria da Graça tem a graça
De deixar atrás de si, quando passa,
O perfume de setenta e picos primaveras.
E o ar, esse, fica mais cheio
Daquele sorriso de raça
Que nem o tempo quis apagar
Do rosto que o sol moldou
No sal da vida que passa.

Às vezes, senta-se na praça
Descansa olhares vagos, distantes,
Nos risos contagiantes
Dos petizes que por lá brincam.
E Maria da Graça, perdendo a graça,
Ainda se sonha, assim criança,
Na adulta que sempre foi.
Que até mesmo as risadas
Soltas em infantis gargalhadas
Eram sempre para conter
O choro faminto e triste
Dos que depois dela, lá em casa,
A vida pariu, para sofrer.

De letras nada sabe
Porque sempre lhe disseram
Que as mãos serviam para fazer
E a cabeça só para ver.
E Maria da Graça sonhava,
Como qualquer outro ser,
Em ser quem por a vida passa,
Em vez de a ver correr.
Mas nem o sonho duma casa,
Que tanto a fez querer,
Mudou, do destino, a traça
Com que a vida a viu nascer.
E, por maldição ou quebranto,
Viveu Maria da Graça em pranto
A ver a vida madrasta
Desfazer-lhe o pouco encanto
Do nada que conseguia ter.

Olha para trás e, por desgraça,
Vê que em nada deixa a marca
Que outros lhe possam ler.
Infeliz de quem a vida destinou
A não poder provar o gosto
De ver, no papel transposto,
A graça que Deus lhe deu.

Mas um dia Maria da Graça,
Ao ouvir os risos na praça,
Dos petizes que por lá brincam,
Levanta a cabeça do breu
E abre as mãos de só fazer
Para agarrar, da vida baça,
O pouco, que quer só seu.
E, na força com que se faz raça,
Num gesto que a ultrapassa,
Apaga do destino a desgraça
De tanto viver sem deixar traça.

Mestre-escola... por favor?
Chamo-me Maria da Graça
Tenho, do que a vida me ensinou,
Cicatrizes de amargo sabor,
De tanto olhar pela vidraça.



E agora, Maria da Graça,
Com letras de avidez
É tempo de quebrares a vidraça
E recontares, com a tua graça,
O sonho de menina-garça,
Mas começando por...
"Era uma vez..."

*****
[Esta é a singela homenagem a todas as Marias da Graça que, com garra, nos dão grandes lições de querer e de viver.
É, também, dirigida aos formadores e organizadores locais do ensino e educação de adultos deste país, pela entrega e carinho com que desenvolvem o seu trabalho.
O meu bem-haja a todos.]


António San
(2005)

4 comentários:

Anónimo disse...

Sinto-mr honrado com a distinção.
Beijo
António

CCF disse...

Então??? Que se passa?
Força...e um abraço apertadinho
~CC~

Margarida disse...

Nada de grave, nunca mais param os exames médicos e agora chegou a vez dos do coração. Depois falamos.

Mto obrigada pelo «abracinho apertado» ... ;-)
Bjs grds

Алексей.RU disse...

красивый у вас город. был в нём много раз когда в море ходил.