domingo, março 23, 2008

Ao que chegámos ...

Face a isto ... temos muito que pensar ...

http://br.youtube.com/watch?v=2ggV1uz_h-A&session=foDi2NYMBoWtuP70JAChwRV9xGOhY9s_EKEPXIRpI3vu5cnxHElKpxoInzCA3h9h78RZucgN3Z_-tnaVX8t8rx2_jruRIC1HUuOMRmhWZ-9p2zocm6FhfyAhrm9a3_8r8sii5U0Urfw8F-23VYaM8ycM-w62yz46J7x_dPryqQjCmDLvJQl6KOoDtezh9u0_9dC0G9zCGLsFWDQwYS1hlmknYKWSoF5utI5qo2EylZFAp2i6hmXy37ycj0qnMji56k7ysIkt87AIgYmjTKF1nc1eXu9lslBV7O1e9Q_ToLkxLyhmQ1AlMDA4aFp0MHHR

Para os pais e para o país: quais os contributos da Escola para o país que queremos ser? Para o nosso futuro colectivo? (não acho que os pais e o país possam ser distinguidos num contexto como este...)

Para os jovens: que expectativas têm da Escola? como acham que as escolas podem contribuir para os seus projectos futuros?
(penso que na escola, na relação com os saberes mais antigos, com a actualidade e com os outros, professores e colegas, a grande maioria dos jovens pode aprender muito ... que há que fazer com todos uma enorme conversa sobre este vídeo ... sobre a forma de utilizar os telemóveis na Escola, sobre o papel da Escola, sobre as suas expectativas ... não consigo deixar de ter uma visão positiva e de acreditar que há sempre uma saída ...)

Para os/as professores/as: qual o seu papel na escola, para a formação dos jovens? ... para que os jovens se tornem pessoas melhores, cidadãos mais responsáveis, sensíveis e solidários, com capacidade de iniciativa e pensamente crítico ...
(são estes os desafios que se colocam hoje aos professores na sua relação com os alunos, das crianças aos jovens ... a partir deste vídeo colocar a responsabilidade na envolvência política e no ambiente criado contra os professores, é, em meu entender, fugir do cerne da questão de ser hoje professor/a - claro que este ambiente ajuda à desresponsabilização dos professores/as ... mas estes/as, como profissionais e Professores/as com "P" ... não podem(os) deixar que nos "distraiam" da enorme responsabilidade social que temos face aos mais novos ... não nos podemos demitir!)

(1. Quanto à situação concreta e aos actores concretos, a disponibilização do video no youtube - veio trazer uma carga de trabalhos para todos os envolvidos num episódio que vale a pena ser muito bem trabalhado em termos locais, na escola, com a professora, o Conselho Executivo, a turma e os restantes professores da turma ... só assim reconheço uma forma de resolver os problemas, através da conversa, da assumpção de responsabilidades (da aluna,da professora, do colega que filmou o episódio e dos colegas da turma, ... - todos têm certamente um contributo a dar para sanar a situação - se for isso que se pretende alcançar ...)

(2. ... e agora que esta situação veio para a praça pública, a nós todos/as, professores/as, alunos/as, pais, mães, membros do governo, com-cidadãos e com-cidadãs - a nós cabe-nos reflectir sobre este episódio, o que nele vemos, como poderemos evitar que episódios destes se multipliquem nas nossas escolas ... também sei, que todos/as temos aqui um contributo a dar ... todos/as estamos implicados/as... ninguém pode ficar de fora.)

(3. ... a minha solidariedade para todos/as os directamente envolvidos...)

(4. Vale a pena ler alguns escritos que sairam no Público de ontem e de hoje que vou publicar nos comentários...)


2 comentários:

Margarida disse...

PÚBLICO
Os valores da câmara
22.03.2008, José Vítor Malheiros


a São as equipas de televisão que presenciam o fenómeno de perto sempre que fazem uma filmagem de rua. O protesto pode constar de uma dúzia de pessoas a conversar na rua mas, mal se liga a câmara, todas se concentram no cone de luz e gritam com exaltação as suas queixas, os seus sofrimentos, as suas palavras de ordem ou o que for. É assim na faixa de Gaza ou na Ribeira. Desliga-se a câmara e dir-se-ia que a multidão também é desligada. As multidões e os indivíduos menos sofisticados tornaram-se media wise, sabem como usar as câmaras. Sabem que quando a câmara é ligada o tempo é de espectáculo e que os quinze minutos de fama estão à espreita.
As razões para a indisciplina nas escolas são inúmeras, desde a inexistência de uma cultura de cidadania, à demissão das famílias e dos professores, à falta de formação dos educadores, à falta de compreensão do papel das regras na educação, à degradação do ambiente físico e social nas escolas onde tudo convida à conflitualidade e nada à reflexão, à confusão entre permissividade e liberdade, à degradação das competências comunicacionais, à influência do entretenimento que enaltece a brutalidade e à ubiquidade da violência, à pressão dos pares, à necessidade de se destacar e de desafiar as regras.
E a tudo isto vem somar-se a influência nefasta das câmaras de telemóvel, que têm a capacidade de transformar qualquer bulha num espectáculo para a Internet. É nítida no vídeo do Carolina Michaelis essa consciência: quem filma diz aos outros que se afastem, que não entrem em campo, está ali a ser feito um filme e a filmagem inibe ainda mais os que pensassem em intervir - não se estraga o espectáculo, the show must go on. A estranha paralisia dos colegas, que não intervêm para pôr fim ao disparate, tem algo a ver com isto. Será que a protagonista mais jovem do confronto se deu conta de que estava a ser filmada? Será que ela também não quis prejudicar a "acção"? Vídeos destes - muitas vezes mais violentos - são correntes na Grã-Bretanha e nos EUA e pela Internet. Jovens provocam desacatos (na aula, na rua, no centro comercial) para que um/a amigo/a os filme. São encenações para a Web, as lesões um dano colateral. São conhecidas como happy slapping mas não têm nada de happy e já houve alguns que chegaram ao homicídio, num frenesim de violência. Esses jovens sabem que estão a ser filmados e são violentos para ser filmados e porque são filmados, porque a violência lhes garante a visibilidade que nada mais lhes dá e o enquadramento num ecrã lhes dá uma ilusão de idoneidade. O vídeo da Carolina Michaelis tem um triste herói anónimo: o cameraman, o que vai alimentando a acção. É ele, mais que outro, o símbolo da falta de valores que a imagem apenas reflecte. E se os valores da escola não puderem competir com estes, é melhor fechá-la(s).

Margarida disse...

PÚBLICO
A culpa é da ministra, dos "paizinhos" e do país
22.03.2008, Alexandra Prado Coelho

A partir do momento em que a notícia do confronto entre uma aluna e uma professora foi colocada no site do PÚBLICO começaram os comentários - mais de 1100 ao final do dia de ontem. Resumo dos principais argumentos num debate sobre a educação em Portugal

a Ninguém sai bem visto. Em mais de mil comentários que em 24 horas (desde o final da tarde de quinta-feira até ao final da tarde de ontem) o site do PÚBLICO recebeu à notícia sobre o confronto físico entre uma professora e uma aluna numa escola do Porto há muitos culpados, e todos saem mal vistos - da aluna à ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, passando pela professora (aliás, pelos professores em geral) e pelos "paizinhos" (é, geralmente, com este "carinhoso" diminuitivo que são chamados).
A aluna
Dificilmente, a estudante do 9º ano que inesperadamente se tornou notícia nacional vai encontrar grande consolo nos comentários dos leitores do PÚBLICO. É, de forma quase unânime, condenada pelo seu comportamento na sala de aula, ao resistir à professora que tenta tirar-lhe o telemóvel. E o tom não é simpático. Carlos Santos, do Porto, considera-a uma representante dos "filhotes da geração rasca, ainda mais mal-educados que os progenitores". Filipe II, de Olivença, manifesta uma preocupação menos altruísta: "São este os jovens que nos vão pagar as reformas? Bem podemos emigrar".
São vários os que defendem como medida de punição a expulsão da aluna "de qualquer estabelecimento escolar público português" (Anónimo, de Tavira), ou mesmo "de qualquer sistema de ensino em Portugal, seja no privado ou no público durante dois anos" (Nuno Conceição, Amadora), ou ainda o trabalho comunitário "dentro da própria escola, como por exemplo manutenção da limpeza de todas as salas ou de todos os w.c." (Diana, de Vila Nova de Gaia).
Aparecem também defensores de métodos radicais. Veja-se, por exemplo, este Anónimo de Coimbra: "Se fosse a minha filha teria nesse mesmo dia levado uma surra em frente a toda a gente com cinto e sem dó nem piedade. Se fosse professor, no primeiro instante em que me levantasse a mão levaria umas boas chapadas mesmo que disso resultasse a minha expulsão. Inadmissível". Há quem sugira (é o caso de João, de Portugal) "três dias de prisão e 30 horas de trabalho comunitário".
Há alguns casos - poucos, é certo, mas por isso mesmo mais polémicos e que provocam reacções indignadas - de defesa da aluna. "Não defendo mas compreendo a reacção da aluna", escreve Jarbas. "Um telemóvel é hoje em dia como um diário. É pessoal, particular, for your eyes only, e na sociedade em que vivemos quem se atravessa neste caminho está a sujeitar-se". Outros questionam o uso do termo "agressão", como o Anónimo que escreve: "A agarrar e a puxar o braço da professora de Francês por esta lhe ter tirado o telemóvel. Duvido muito que isto caiba numa agressão, conforme o título, a aluna só quer o telemóvel. No meu tempo os professores não tiravam aos alunos nada que lhes pertencesse".
A ministra
O primeiro comentário, que inaugura o debate, é das 18h23 de quinta-feira, vem de Beatriz, de Gaia, e é directo: "Lamentável o estado a que chegou o ensino em Portugal! Nós, professores, exigimos respeito!!!!!!!!!!!!!!!!!! Basta!!!!!!!!!!!! A ministra deve demitir-se!!!!!". A partir daí foram muitos os que vieram recordar que "foi por isto que 100 mil foram para a rua", numa referência à recente manifestação de protesto dos professores em Lisboa.
Repetida em vários comentários está a ideia de que a política da actual ministra está a descredibilizar os professores. "Quando um Governo não respeita uma classe; quando um Ministério passa para a opinião pública a imagem de que os professores são os principais responsáveis pela má educação do nosso país, do que podemos estar à espera?", insurge-se Maurício Brito, de Viana do Castelo. "A indisciplina é hoje uma realidade permanente nas nossas escolas. [...] São três anos a fazer passar uma mensagem que retirou completamente a autoridade aos professores", acrescenta Rita Salema, de Lisboa.
Por detrás das críticas à ministra estão, obviamente, as críticas à política de Educação, com vários leitores a afirmarem que as mudanças curriculares e de regras de funcionamento da escola têm tido um mau resultado. Comenta, com ironia, Agostinho Vaz, de Ílhavo: "Dêem-lhes mais área projecto, estudo acompanhado, mais educação sexual e educação cívica que tudo se resolve [...] haja coragem: já reduziram a segunda língua a uma aula por semana, acabem com ela de vez, e com a matemática e a gramática e o latim (ooops, Rip). Com tantos talentos que tem esta criançada só são precisos professores de sexo e ideologia televisiva".
Outros insurgem-se contra o novo Estatuto do Aluno que, escreve Agostinho Santos, de Pombal, "não distingue faltas por doença de faltas por cabulice (apenas nos números, não nos efeitos); limita a capacidade de intervenção sobre estes comportamentos, etc., etc.". Maria Rita, de Setúbal, reforça a opinião: "E agora, já perceberam que não basta escrever no Estatuto do Aluno que não são permitidos aparelhos electrónicos nas aulas, é preciso ir mais longe e dar meios aos professores para exercerem a sua autoridade e isso passa por permitir que sejam marcadas faltas aos alunos que desrespeitam os professores e que essas faltas tenham reflexo na sua vida escolar!!!".
"Qual é a pena máxima a que se sujeita esta aluna?", interroga-se Ana Tavares, do Porto, para responder logo de seguida: "Dez dias de suspensão, que não têm nenhum efeito penalizador porque já nem sequer se reprova por faltas! [...] À luz do novo estatuto do aluno provavelmente ainda terá direito a uma prova de recuperação por ter estado dez dias ausente das aulas".
E há os que optam pelo humor: "Não incomodem a DREN [Direcção Regional de Educação do Norte], por favor", pede um Anónimo do Porto. "Eles andam a escutar as conversas nos gabinetes e a fazer queixa uns dos outros. Deixem-nos trabalhar".
Apesar disso, há alguns leitores isolados que defendem a ministra. É o caso de Manuel Pavia, de Lisboa, que às oito horas da manhã de domingo escreve: "Mas, senhores professores, por favor, parem de uma vez por todas de insultar a competente e corajosa Ministra da Educação e o Primeiro-Ministro do governo de rigor reformista do nosso país, da forma soez como muitos o têm vindo a fazer".
Surgem também referências à questão escola pública/escola privada. "Porque será que nos colégios particulares isso não acontece?, pergunta José Lourenço, de Lisboa. "É por causa desta indisciplina, a todos os níveis, que renuncio a tudo para ter os meus filhos num colégio particular. Não faço férias, mas também os meus filhos não são educados na selva do ensino oficial!". A. Cardoso, de Lisboa, concorda: "A minha filha está numa escola privada. Não por elitismos, não por os professores do privado serem melhores, mas exclusivamente pela segurança".
Os "paizinhos"
Ninguém os defende. São, segundo opinião generalizada, os grandes culpados. Porque se demitem do seu papel de educadores e esperam que a escola os substitua, porque mimam demasiado os filhos, porque justificam e chegam até a defender comportamentos deste tipo. "Solidariedade à professora e a todos os professores que têm que ensinar estas "bestas" que são o reflexo dos pais que têm em casa", escreve Mário, das Caldas. "Paizinhos, então?", desafia Jorge, do Porto. "A maioria desconhece o que se passa no interior da sala de aula! Outros nem conhecem os filhos que têm em casa. Outros dão cobertura às atitudes dos filhos! Outros, depois de convocados, não colocam lá os pés! Outros, se lá vão, armam confusão e ameaçam o director de turma (e quantos com pancada)!".
"Onde andam e o que andam a fazer os paizinhos destes miúdos palermas?", pergunta, a partir da Polónia, Patrícia Freixo. "Eles apenas tratam os professores como tratam os pais!! De quem será a culpa?" (Anónimo, Porto).
Pedro Santos, de Lisboa, resume: "Isto é o produto líquido de um falhanço geracional na socialização do indivíduo, onde os pais e a sua demissão permanente conduzem os filhos ao vazio de valores e à futilidade dos referenciais". Ou, dito por outras palavras (neste caso as de João, dos Açores): "Estamos a produzir uma geração de mimalhos malcriados, com a bênção do Estado".
A professora (professores)
As opiniões dividem-se entre os que se solidarizam com a professora e consideram que ela foi corajosa - "um professor menos corajoso deixaria passar para não se aborrecer", acredita Paulo Semedo, de Coimbra -, e (em menor número) os que consideram que ela lidou mal com a situação. "Porque é que a professora não optou por outra solução?" questiona José Girão, de Lisboa. "Por exemplo, chamar pessoal auxiliar, não começar a aula sem que tivesse condições para isso; tentar negociar a situação; ou qualquer outra excepto o confronto físico". Um leitor que se identifica como Acropolis e escreve de Sintra considera que a professora "não se sabe dar ao respeito, envolvendo-se em birras infantis".
Vários professores participaram no debate no site do PÚBLICO, alguns para dar exemplos de outras situações do mesmo tipo e da impotência que sentem perante elas. "Sou professora há 22 anos e de há uns anos para cá a indisciplina tem aumentado como se de um vírus se tratasse", denuncia uma participante anónima. "Onde está a responsabilidade dos pais, que se demitem da sua função e nem à escola vão? Gostaria que houvesse uma estatística da comparência dos pais na hora do atendimento dos mesmos. Pode alegar que a hora é imprópria, os Directores de Turma disponibilizam horas de atendimento fora do horário de trabalho. Quererá que o atendimento seja feito ao domicílio?".
Este comentário era uma resposta a uma das intervenções mais polémicas, a de João Bernardo Salsicha, de Estremoz, que acusou a professora de ter demonstrado "total ignorância e inépcia pedagógica".
O país
O país leva de todos os lados. "República das bananas" é uma expressão que aparece em vários comentários sobre "este país que temos". Outros (Anónimo, de Odivelas) recordam o tempo em que "Portugal era realmente um país a sério [...] em que cenas destas nunca se dariam"
"Sinto que o meu país assim não vai a lado nenhum", lamenta-se Pi, a partir de Roma. Diogo Barbosa, do Porto, considera que o episódio "retrata bem o país que temos, que não é mais do que um país do terceiro mundo que teve a sorte de se situar fisicamente na Europa". Há mesmo quem já se tenha reposicionado no mundo: José Dias escreve de "Almada, Portugal, 4º Mundo".
Para terminar, o futuro (pouco risonho) visto por Rui Zink: "Muito mais tristes do que a rapariga na imagem são os comentários e os risos dos seus coleguinhas. Quando forem grandes vão de certeza ser Portugueses. Na volta, se calhar, já são".