A - Quando se chega a esta altura do ano e se gastam dias de trabalho de
vários professores por conta da organização das provas de aferição, fico
sempre a interrogar-me sobre os custos benefícios, para os alunos,
deste tipo de despesas do OGE.
Não são só os professores das escolas
que gastam o seu tempo com a organização local para a realização destas
provas. É toda a "máquina" que está montada, na preparação das
provas (conceção, arranjos gráficos, impressão, feitura da r
egulamentação,
impressão e preparação da distribuição), na realização efetiva da sua
distribuição (é mobilizada a PSP e a GNR, por esse país fora), o apoio e
acompanhamento à realização das provas, a inspeção geral de educação
que acompanha e monitoriza tudo, as salas disponíveis para esse efeito,
os professorea avaliadores, os professores supervisores, os
classificadores, ..., ...,
E se este orçamento fosse antes
investido em benefício de alunos com dificuldades de aprendizagem, em
educação artística, em turmas menores, em projetos de articulação
interdisciplinar, ..., ..., ... ?!????
B - Estar em Abril, neste "dia limpo e inteiro" e ter como pano de fundo
as "Provas de Aferição" no Ensino Básico, os exames, é sentir os
mecanismos de controlo e de exclusão social dos tempos de 24 de abril de
uma forma dolorosa, inadmíssivel, quase como uma tortura.
Não há justificação que valha!
No dia 26 de abril de 1974, saí à rua contra os exames, fui a reuniões,
fui a manifestações. Tinha 15 anos, então, e tinha a perfeita
consciência que os exames em nada me ajudavam a aprender. Comecei a
trabalhar como professora, em 1980, e ainda se sentia o "cheiro" destes
mecanismos de controlo através do medo das inspeções nas escolas, mas
não havia já os exames da 4.ª classe, de má fama, que para além de
avaliarem os conhecimentos, avaliavam também as consciências,
controlavam-nas.
Haverá melhor forma de prestar contas sinceras e
honestas aos nossos alunos, aos seus pais e a toda a sociedade, do que o
trabalho quotidiano de aprendizagem que desenvolvemos nas nossas salas
de aula, nas nossas escolas? Não será esse o trabalho que a Inspeção
Geral de Educação deve verificar?
Não precisamos de provas de aferição, nem de exames!!
Não somos seres inteligentes e não sabemos inventar e criar outras
formas de "mostrar" e de provar o valor do nosso trabalho? Formas que se
baseiem na construção cultural, intelectual e artística conjunta, que
fazemos todos os dias com os nossos alunos?
É este o nosso trabalho
de educadores e professores! É um trabalho de médio e de longo prazo,
tal como as corridas de fundo. É um labor em que acreditamos no
potencial em desenvolvimento de cada um dos seres que temos na frente, e
no grupo como um todo - um recurso inestimável para a aprendizagem de
cada um (Niza, 1998).
Um trabalho que recomeça todos os dias, de
forma igual ou diferente, consoante as necessidades, mas acreditando
sempre! Acreditando que, todos, alunos e professores, conseguimos ir
melhorando, desenvolvendo projetos, conhecendo os currículos, o que
neles interessa e é significativo, importante, APRENDENDO! Só assim as
Escolas se tornarão verdadeiras comunidades de aprendizagem, comunidades
de construção social e cultural.
Não precisamos de provas de aferição, nem de exames!!
Não se educa na desconfiança! O pressuposto subjacente às provas de
aferição, aos exames, que se consubstanciam nos "rankings" das Escolas.
Os "rankings" não servem a aprendizagem dos alunos! Não servem a
construção de comunidades inclusivas de construção social e cultural de
aprendizagem. As provas de aferição, os exames e os "rankings"
transportam consigo um odor de exclusão social, de controlo, de
desconfiança sobre o quotidiano das salas de aula e das escolas, que
está ultrapassado há muito. Um espírito que está muito longe do sonho,
ainda hoje em construção, das comunidades sociais e culturais
inclusivas, solidárias, abertas e livres que o 25 de abril nos trouxe.
Não precisamos de provas de aferição, nem de exames!!
Há sinais de esperança, muito contraditórios, sobre os quais é
necessário refletir, como o projeto da Flexibilização Curricular,
preconizado por esta equipa governativa (A mesma que mantém em
funcionamento toda esta máquina das provas de aferição e dos exames).
Está aberto o caminho. É preciso percorrê-lo, sem medo de errar. Os
erros servem para se aprender com eles! Não servem para mais nada.
Trata-se aqui da nossa aprendizagem coletiva, enquanto sociedade.
A quem servem as "provas de aferição"? A quem servem os exames? A quem servem os "rankings"?
25 de Abril, SEMPRE!!
Nota: Estes são dois pots que escrevi sobre este tema, no Facebook, entre 24 e 25 de abril de 2018, 44 anos depois de 1974.