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Em tempos de Ressurreição de Jesus Cristo …
Nesta Primavera, em tempos de renascimento, de renovação e da Ressurreição.
Tempos pascais de transformação profunda de todos os batizados em Jesus Cristo. TODOS!! TODOS!! TODOS!!
Quero fazer parte da renovação da Igreja do século XXI iniciada pelo muito querido Papa Francisco. Uma Igreja sinodal construída por todos os batizados, homens e mulheres, em que aqueles e aquelas, que a governam e representam têm densidade humana e espiritual - uma não existe sem a outra. Falo de uma densidade que se ganha pelas responsabilidades de viver em comunidade, de viver com os irmãos e as irmãs, de ter uma família, de ter de a sustentar e de educar filhos, de os ajudar a crescer e a desenvolverem-se enquanto seres humanos inteiros, realizados e responsáveis. Refiro-me a uma Igreja enraizada na Vida da sociedade do nosso tempo, que se rege pelos ensinamentos do Amor, da Justiça e da Misericórdia de Jesus Cristo, dando uma especial atenção aos mais pobres, aos mais fracos e aos mais vulneráveis. Não tenho dúvidas que se vivesse no nosso tempo, Jesus Cristo seria um defensor fervoroso dos Direitos Humanos – da fraternidade humana - da Liberdade, da Paz, da Justiça Social, da Democracia, da Igualdade e da Inclusão, em todas as dimensões das nossas vidas.
A forma como a hierarquia da Igreja Católica Portuguesa tem lidado com a questão dos abusos sexuais é paradigmática e mostra bem qual o referencial de poder em que vive o coletivo dos nossos "pastores" que constituem a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Continuam a agir num registo que não é o do nosso tempo, de acordo com ensinamentos de Jesus Cristo, no qual todos somos batizados e todos e todas somos filhos de Deus. Continuam a atuar de um modo em que impera a lei do mais "forte", com o silenciamento dos mais vulneráveis, a ocultação, a recusa da igualdade entre homens e mulheres, como se não bastassem já décadas de silêncio, de ocultação, de encobrimento e desculpabilização daquilo que é indesculpável.
Penso também no desprezo e esquecimento a que foi votado o conhecimento acumulado pela Comissão Independente, cujo relatório foi elaborado de forma transparente, respeitando todas as normas éticas e científicas usadas pelas melhores práticas de investigação atuais em Ciências Sociais e Humanas. Este relatório, pelas incómodas evidências que gerou, foi posto em causa por alguns membros do clero, da CEP e de setores mais conservadores da Igreja. Como que querendo continuar a pôr para debaixo do tapete, aquilo que já estava à vista de todos.
Refiro-me também à forma como se realizaram os processos que deram origem ao cálculo das indemnizações a que as vítimas de abusos sexuais teriam acesso. De acordo com a associação das vítimas foi necessário, em muitos casos, voltar a reviver o pior das suas histórias dos abusos sexuais que sofreram, para reclamarem indemnizações a que têm direito. Inacreditável.
Tudo isto a par da decisão da CEP pela redução dos montantes das indemnizações propostas por uma comissão de juristas e magistrados, enquanto se sabe dos lucros de 35 milhões de euros gerados pelas Jornadas Mundiais da Juventude (2023).
É necessário ainda mencionar o facto inconstitucional da ocultação às vítimas dos relatórios que sobre elas foram produzidos, o que viola a Constituição da República Portuguesa, bem como a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Pergunta-se em que tempo e em que mundo vivem estas pessoas com responsabilidades na Igreja Católica Portuguesa. Pergunto-me se têm família? Têm irmãs ou irmãos? Sobrinhas, ou sobrinhos? Primas ou primos? Têm amigas ou amigos? Não posso deixar de perguntar: E se uma dessas pessoas que lhes são próximas fosse abusada sexualmente reagiriam da mesma maneira? Chama-se “calçar os sapatos dos outros”, colocar-se no seu lugar: empatia, compaixão, ou, dito de outra forma, Misericórdia.
Como é possível não terem percebido que apesar de juridicamente - de acordo com as leis dos homens - haver crimes que prescrevem, o sofrimento das vítimas, esse não prescreve e por mais acompanhadas que sejam, a todos os níveis, muitas vivem com essas feridas e grandes cicatrizes para o resto das suas vidas?
Tudo está em cima da mesa e tudo necessita de ser repensado na renovação sinodal de uma Igreja que se quer humana, inclusiva, acolhedora e profética, à imagem do que nos ensinou Jesus Cristo: «Amai-vos uns aos outros».
Em memória do Papa Francisco, seria muito bonito e profundamente reparador – principalmente para as vítimas, mas também para todos aqueles que se sentem indignados pela forma como a Igreja Católica Portuguesa tem lidado com estes casos - que dos 35 milhões de euros de lucros gerados pelas Jornadas Mundiais da Juventude, parte significativa fosse usada nas compensações às vítimas dos abusos sexuais na Igreja. Afinal foi ele que, com a sua humanidade, abertura, compaixão e misericórdia, deu um impulso significativo para que esta questão dos abusos sexuais na Igreja Católica fosse enfrentada com lucidez e responsabilidade, assumindo as respetivas consequências de forma inequívoca. Exigindo ainda que as vítimas fossem ressarcidas financeiramente, mas também que fossem ouvidas e tratadas com toda dignidade e o respeito que merecem, depois do enorme sofrimento provocado pelas sequelas dos abusos sexuais.
