domingo, janeiro 08, 2023

"A 'ferida' da classe docente!"

O meu alinhamento noticioso, hoje: "A 'ferida' da classe docente".
Instalou-se no meio dos professores um sentimento de injustiça, que, nos tempos que correm, é muito difícil de ser reparado. Este sentimento vem associado a uma crescente burocratização do exigente quotidiano das escolas e a uma perda de direitos - nomeadamente para educadores de infância e professores do 1.o CEB: a não contagem integral do tempo de serviço para quem como eu trabalhou, ou trabalha ainda, desde 1980 (isto abrange tod@s), o não haver qualquer compensação na idade de reforma, por não haver redução do horário letivo, nem na educação de infância, nem no 1.º CEB (houve tempos em que educadores de infância e professores do 1.º CEB se podiam reformar mais cedo para compensar esta impossibilidade de redução do tempo letivo ao longo da carreira). Estes são grupos maioritários na classe docente. Também é preciso dizer que se trata de uma classe com uma média de idades muito avançada, como saberão.
Para muitos de nós, estas regras mudaram quando estávamos a 4, 5 anos da reforma. Passámos a ter que trabalhar mais 10 a 15 anos, em condições mais burocratizadas, ou seja, com mais controle, e sem que cerca de 6 anos e tal do tempo de serviço completo e efetivamente cumprido, alguma vez fosse, ou venha a ser contado (mesmo depois da recuperação que este governo procurou fazer).
Depois da pandemia, em que houve um reconhecimento generalizado da importância do quotidiano das escolas e do trabalho dos educadores e professores para o bom funcionamento da sociedade em geral, muito pouco foi de facto feito para reverter a falta de reconhecimento que os professores e educadores sentem, através de medidas concretas que repusessem justiça nas suas carreiras. Medidas que ajudassem também a recrutar jovens com formação adequada para a profissão docente - veja-se o atual problema da falta de professores.
Desde 2015 que o Ministério da Educação reverteu praticamente todas as medidas de caráter pedagógico que Crato tinha implementado: existe atualmente uma flexibilidade e autonomia de gestão curricular nas Escolas, que antes não havia - o que significa que há um reconhecimento de como os professores são profissionais responsáveis e capazes de fazerem bem essa gestão do currículo, com os seus aluno - sublinho, "com os seus alunos"; os exames - este paupérrimo instrumento de avaliação da qualidade das aprendizagens - como imperativo para a avaliação deixaram praticamente de existir; o perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória é um documento orientador de referência incontornável para todo o sistema educativo, desde o pré escolar ao final do secundário, para toda a escolaridade obrigatória (até aos 18 anos de idade de qualquer cidadão português); este, a par da educação inclusiva, do reconhecimento de que de facto a escola é para todos e de que na sala de aula devem estar todos - apoiados com as medidas e recursos necessários para que, em conjunto, cada criança ou jovem, no seu grupo de pares, possa desenvolver ao máximo o seu potencial, ultrapassando categorizações redutoras, reconhecendo que há necessidades concretas diferentes que podem beneficiar todos, em interajuda e cooperação, numa construção quotidiana de humanidade mais solidária e compassiva - o sucesso de cada um, depende do sucesso de todos; o digital, a tal transição que começou há já quase 40 anos, em 1985, com vários programas e medidas que se têm sucedido, explorando potencialidades de acesso, de utilização e de compreensão das potencialidades, mas também dos limites, do que é ter em cima de uma mesa de sala de aula um telemóvel, um mini computador, onde a informação, algum conhecimento, mas também "fake-news", estão à distância de um clique; e a cidadania, decorrente da necessidade de aprendermos todos e todas - alunos, educadores, professores, funcionários, pais, toda a comunidade educativa, independentemente da origem social, cultural, da língua materna, do género, ou outra especificidade - a viver em conjunto, a que se consubstancia na estratégia nacional de educação para a cidadania, é um recurso, ou melhor um instrumento indispensável e transversal, tanto horizontalmente, como verticalmente, a todo o currículo, ou seja, a todos os percursos escolares, e sempre presente - uma estratégia de aprendizagem, de co-construção conjunta de espaços educativos mais solidários, mais criativos, mais justos e mais humanos.
Há gente magnífica, atores educativos excelentes, profissionais que todos os dias usam todas estas medidas, estas orientações para construirem salas de aula, jardins de infância, escolas e agrupamentos de escolas, como espaços de aprendizagem solidários, democráticos, abertos e criativos, onde tod@s se sentem realizados, crescem e aprendem.
Penso que hoje, há mais condições de trabalho digno nas escolas, do que havia no final do governo de Passos Coelho, do ministro Crato. Não há qualquer comparação.
Mas, como curar "a ferida" que se instalou no meio dos professores? Este sentido de falta de reconhecimento, de injustiça perante regras que foram mudadas a meio de percursos profissionais que já iam a muito mais do que metade?
É isto que é necessário ser reparado sob pena de um aproveitamento político fácil e desestabilizador, num momento particularmente difícil numa democracia ocidental como é a nossa.
Depois da pandemia, com uma guerra na Europa, com movimentos xenófobos, racistas e fascistas a proliferarem, é em conjunto, enquanto sociedade, que precisamos de "curar feridas" e co-construir futuros mais democráticos, mais solidários e mais justos - olhando para cada árvore, mas interagindo sempre com a visão da floresta.

 

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