sexta-feira, maio 02, 2014

"Apostar na educação para reinventar Portugal", por António Nóvoa

Uma entrevista de leitura obrigatória. Temos aqui um excelente candidato a PR em rampa de lançamento? Deixo aqui pequenos extratos para despertar a curiosidade:

«A atual política para a Educação faz parte da matriz ideológica deste governo, que nada tem a ver com a crise, e que podemos ilustrar com quatro "E": Escolha, Excelência, Empregabilidade e Empreendedorismo.
Comecemos pelo primeiro. É a famosa ideia da 'liberdade de escolha', que no fundo é um eufemismo para falar, não da liberdade, que é o combate da minha vida, mas da privatização da escola. (...) O que está em causa é um ataque à escola pública tal como foi construída depois do 25 de Abril. Depois segundo "E", de Excelência, que subjacente a ideia de um ensino seletivo. (...) Infelizmente, o discurso da Excelência é, quase sempre, um discurso contra a inclusão.(...)
[O "E" de Empregabilidade está associado a] Uma visão estreita do ensino, presente em políticas que, no Secundário, e agora também no Básico, apostam no "célebre" ensino vocacional/profissional, e, na Universidade, na criação de ciclos curtos no Ensino Politénico, de vagas só para os cursos que têm saídas profissionais, etc. No fundo está em causa um afunilamento do olhar sobre a Educação, que é obviamente um processo muito mais complexo do que a preparação para um emprego. E não deixa de ser curioso que quanto mais se fala de empregabilidade, menos emprego existe. O Empreendedorismo - quarto "E" - traduz por sua vez uma redução da Ciência: só interessa se for útil, aplicável. Como se saber Matemática ou Física, e por maioria de razão História ou Filosofia, fosse completamente inútil e desnecessário. O Empreendedorismo despreza a ciência como cultura , para valorizar apenas a sua imediata "utilidade".
(...) As palavras não têm culpa. E em abstrato, ninguém tem nada contra contra a Escolha, a Excelência, a Empregabilidade e o Empreendedorismo. Mas a forma como estes conceitos têm sido traduzidos em políticas corresponde a um enorme retrocesso. O primeiro em relação à escola pública; o segundo ao princípio da inclusão; o terceiro a uma formação mais geral de base científica e humanista; e o quarto à Ciência como cultura. Este retrocesso vai deixar marcas para os próximos anos.
(...)
A crise não é apenas uma realidade objetiva, é também construída ideologicamente. Não tenho dúvidas que a crise foi aproveitada para criar um Estado de Exceção. Deixámos de viver num Estado de Direito e passámos a viver num Estado de Exceção. (...)
 (...)
Peguemos nos três "D" de Abril: Democracia, Desenvolvimento e Descolonização. Primeiro, é preciso reinventar a democracia. (...) Há que construir uma democracia mais participativa, de maior proximidade. (...)
A ideia que podemos continuar com este modelo de Desenvolvimento, com estes níveis de de exploração dos recursos e de consumo de energia, é absurda. Precisamos de um desenvolvimento em paz com a terra, tema que a crise empurrou para segundo plano. Se continuarmos a viver como vivemos, o planeta não sobreviverá ao século XXI.
(...)
[Falta-nos] Confiança e uma visão de futuro. E aqui entra o teceiro "D", de Descolonização, que parece não fazer sentido hoje em dia, mas faz. Tem a ver com a nossa integração na União Europeia (UE) [que também precisa de ser repensada]. (...) Veja-se a questão dos fundos comunitários. É verdade que foram mal gastos. E de quem é a "culpa"? É da UE que nos deu dinheiro para muitas infraestruturas, mas pouco nos deu para a Escola e para a Ciência, por exemplo. Mas também é nossa porque permitimos que assim fosse. (...)

[Uma estratégia de futuro deverá passar] Por um país com cultura escolar e científica. (...)

Portugal precisa [para sair da crise] de uma outra visão sobre a democracia, o desenvolvimento e a integração na Europa e no mundo globalizado, e de unir dois pilares fundamentais: o conhecimento e o território, a ciência e a sociedade, as universidades e as empresas. (...)

[Uma visão optimista e entusiástica em relação ao futuro do país ...]
Mia Couto disse, uma vez, que era optimista porque em Moçambique eram pobres demais para se darem ao luxo do pessimismo. Sinto o mesmo face a Portugal. Além disso, alguém que está ligado à Educação tem de ser optimista. Um professor pessimista é uma contradição: se eu não acredito que todos os meus alunos podem ir mais longe, não tenho o direito de ser professor. O mesmo se aplica à política. Quem está na vida pública tem a obrigação de ser optimista, de construir o futuro, de dizer às pessoas que há futuro para além da crise. Porque sem confiança não vamos a lado nenhum. (...)» 
 
In Jornal de Letras, 30/4/2014
A entrevista completa: http://www.ulisboa.pt/wp-content/uploads/Clipping/30abr_reitor_emerito.pdf


[Última atualização: 5/04/2014, 23h08]

quinta-feira, maio 01, 2014

1.º de Maio: Dignifiquemos o que é ser professor/a


«Professores insatisfeitos, pais preocupados e alunos que acham as aulas uma maçada. O que é que se passa com a nossa escola?
Esse é o retrato da escola portuguesa e da generalidade das escolas dos países ocidentais devido à forma de organização do trabalho. A estrutura de ensino simultâneo – todos a aprender a mesma coisa ao mesmo tempo – vem do século xvii e ainda perdura apesar de se saber desde os anos vinte do século xx que é um modelo esgotado. O professor dá uma lição, depois faz uma pergunta, escolhe um aluno para responder e avalia o trabalho substancial que é feito em casa. O principal problema da escola está neste modelo de não-comunicação em que o professor usa mais de três quartos do tempo da aula para falar sem que os alunos participem ou estejam envolvidos. Assim não há diálogo possível. Poderá algum jovem ou criança suportar isto?

Não é a melhor metodologia para aprender, certo?
Hoje, graças à investigação, sabemos que se aprende dialogando, falando e escrevendo o conhecimento científico e cultural que se estuda na escola. Devemos contar com a inteligência, os saberes e a colaboração dos alunos e os currículos não devem ser um segredo, devem ser eles a geri-los em conjunto com os professores. Persistir neste modelo de não-comunicação equivale a continuar a encarcerar alunos e a impedir a sociedade e as pessoas de se aproximarem da escola.(...)»

In DN Magazine, 14/4/2014

Para saber mais: http://www.noticiasmagazine.pt/2014/ser-professor-e-um-inferno/

Reference ...

Cabo da Roca, Sintra
dezembro 2012

segunda-feira, abril 28, 2014

25 de Abril: "40 anos de 25 de Abril", por José Carlos Abrantes

Quantos e quantos testemunhos não haverá como este?

«Chegou o exame de admissão ao Liceu (e à Escola técnica) e a turma inteira, talvez 25 alunos, ficou reduzida aos 4 ou 5 que puderam continuar os estudos. O que foram fazer osoutros? Trabalhar nos campos, ajudar as mães, dar um apoio a um pequeno comércio gerido pelos pais, alguns rumaram a Lisboa acolhidos por um familiar para encetarem vida na capital. Não tenho registo do que se passou com todos, alguns até por ventura bem sucedidos nesse confronto, demasiado cedo, com a vida. É isto uma educação de excelência?»

Para saber mais: http://inquietacoespedagogicasii.blogspot.pt/2014/04/40-anos-de-25-de-abril.html

In Inquietações Pedagógicas.


25 de Abril: "O pior analfabeto", Berthold Brecht


domingo, abril 27, 2014

25 de Abril: "Educação Popular e 25 de Abril", por Rui Canário


«Entre Novembro de 1975 e Julho de 1976, a Direção Geral de Educação Permanente (DGEP) jogou a fundo a carta da autogestão na educação de adultos. Foi formalizada uma orientação segundo a qual se entendia que a organização popular "numa base de associativismo, é um passo fundamental" para uma educação de adultos "numa perspetiva libertadora, assim como para a construção sólida de uma nova sociedade democrática" (DL 384/76 de 20 de Maio).
Poderá a memória desses tempos efémeros, mas fecundos, inspirar hoje a nossa criação de futuros?»


Para saber mais: http://inquietacoespedagogicasii.blogspot.pt/2014/04/educacao-popular-e-25-de-abril-rui.html

In Inquietações Pedagógicas.


25 de abril: "Viva quem canta", Pedro Barroso