sábado, fevereiro 27, 2010

Um dia memorável ...






Hoje tive um daqueles dias memoráveis ...

De manhã participei numa vídeo conferência organizada pelo Grupo de Estudos e Pesquisa em Etnomatemática de Portugal - http://gepemportugal.blogspot.com/. Participei numa conversa com o Prof. Ubiratan d'Ambrósio - http://vello.sites.uol.com.br/ubi.htm, o criador e pensador de campo do conhecimento, a etnomatemática. Foi para mim comovente, ver como, cá em Portugal, na Costa da Caparica, da casa da Mónica, nos pusemos em contacto com S.Paulo, no Brasil, onde estava o Professor, e com o Alexandre Pais, que está a fazer o seu doutoramento na Dinamarca, na Universidade de Aalborg (mesmo no norte da Dinamarca). Para esta "conversa" juntámo-nos pessoas com percursos e experiências tão diversificadas, mas todas tão curiosas sobre a etnomática e as suas implicações para novas formas de olhar e de ser no mundo. Foi superinteressante!! - ouvir o Prof. Ubiratan falar de como o ser humano, desde que nasce, depois ao satisfazer as suas necessidades de sobrevivência, precisa também de satisfazer as suas necessidades de transcendência, através da cultura, da religião ou espiritualidade. Também explicou como a etnomática procura compreender o que é, por exemplo, para um africano ser um ser matemático no Brasil, num contexto cultural diferente do seu de origem. Ele falou também de como o essencial para a sobrevivência da humanidade é manter uma relação harmoniosa entre os três vértices de um triângulo que são definidos pelo indivíduo, os outros (social) e a natureza. O Prof. Ubiratan debruçou-se também sobre a diferença entre respeito e tolerância (uma perspectiva arrogante de olhar o diferente: tolero-o, mas não interajo com ele), sobre como o respeito é indispensável numa comunidade multicultural para que uma construção conjunta de uma sociedade intercultural possa ocorrer, através do diálogo e das diversas interacções entre diferentes perspectivas. Como devemos olhar, para actos de dominação como actos de amor, porque quem os pratica considera que esses actos são os melhores para todos.
Também se debruçou sobre a matemática e as leis que se vão estabelecendo a partir de actos ad-hoc, de respostas improvisadas a problemas. De como à dedução e à indução foi necessário acrescentar "o ponto pé de saída" ... Também falou longamente sobre a necessidade que o ser humano tem de prever o futuro e de como essa necessidade o conduz e o põe em contacto com tantos saberes divinatórios ... divinos ... e como por mais que a ciência explique os fenómenos, há sempre mistérios que se vão mantendo, que conduzem a novas questões que os seres humanos voltam a colocar aos saberes divinatórios ...

Impressionante, foi fazer toda esta conversa, a que com muita pena minha não pude assistir até ao final, a partir das interessantes questões colocadas pelos participantes. Há uns anos, sem estes recursos tecnológicos, esta conversa não teria sido possível.

Fiquei cheia de vontade de ler mais sobre o que o Professor Ubiratam escreve.

Não pude estar até final de tão interessante conversa, porque hoje o almoço foi um almoço de homenagem ao Sérgio Niza, um dos fundadores do Movimento da Escola Moderna - http://www.movimentoescolamoderna.pt/. Foi no seio desta Associação que cresci profissionalmente e onde encontro muitos amigos. Foi uma delícia encontrar todos estes amigos ao final de algum tempo - tanto afecto, tanto carinho. Foi uma linda homenagem e o Sérgio merece-a.

[Nota: Gostava que notassem que estas são as minhas palavras, para lembrar o que os meus ouvidos ouviram, daquilo que o Professor Ubiratan hoje disse; posso mesmo não ter percebido bem ou mesmo não ter conseguido expressar através da escrita o que ouvi. O que aqui escrevo só a mim me pode ser pedida responsabilidade.]

terça-feira, fevereiro 23, 2010

«Algo vai mal, no Reino da Dinamarca ... »

A propósito de mais dois recados de Enc. de Educação para professores que acabo de receber, sirvo-me desta citação, da qual desconheço a origem, para sinalizar que há algo vai mal, não no reino da Dinamarca, mas sim no nosso canteiro à beira mar plantado.







O assunto da mensagem de mail que me chegou era «Os papás é que mandam». Fico completamente atónita com a ironia e com a arrogância que ela denota. Começo logo por ficar surpreendida com o facto de haver quem faça circular tais mensagens. Começam a desenhar-se à minha volta um rol de hipotéticos filmes ...

Filme I
Será que os professores que fazem circular este tipo de mensagens se sentem tão ameaçados com elas, que não têm outra forma de reagir, a não ser divulgá-las? Trabalham em escolas onde não há qualquer possibilidade de diálogo entre os Enc. de Educação e professores, tal é o clima que aí se vive? Acham que têm sempre razão e que nunca se podem enganar? Não são capazes de ouvir os alunos, nem os seus pais, para perceberem melhor o que este tipo de mensagens significam? Desconhecem por completo que a forma que a Escola hoje assume é uma recentíssima construção social, que não teve sempre esta forma? Que a Escola é uma resposta social e cultural local, uma comunidade cultural de formação e de socialização de todos os que lá se cruzam, onde para além dos alunos eles próprios se devem incluir, bem como os Encarregados de Educação?


Filme II
Pensando em que não há acções que não sejam reacções a outras acções ... imagino a pressão a que estes alunos não devem estar sujeitos, para que os pais se sujeitem a escrever este tipo de mensagens. Imagino como estes professores devem sentir que a sua função de "instrutores" fica ameaçada com este tipo de mensagens. Não serão os professores mais do que meros "instrutores", transmissores de conhecimento, mais do que peças de uma enorme engrenagem? Se eles não souberem transmitir aos jovens o gosto pelo conhecimento (e falo aqui de diversos tipos de conhecimento: aprender a ter, aprender a ser, aprender a fazer, aprender a viver em conjunto, aprender a aprender (Delors, 1996)), a pertinência social e cultural desse conhecimento ... será que os poderemos considerar como verdadeiros Professores, como Educadores, como agentes culturais efectivos?

Reconhecendo que nos últimos anos tem havido uma enorme pressão sobre os professores, este tipo de mensagens não acentua e reforça esse tipo de pressão?

E o que tem este tipo de reacções a mensagens como estas, a ver com essa forma de pressão social sobre a classe docente?

Só percebendo o que significam estas missivas, no seu contexto concreto, se lhes poderá uma resposta adequada e compreensiva, tudo o mais são especulações, como aquelas que aqui vou faço.

Lembrei-me a este propósito de um texto que escrevi há uns anos e que me parece ainda actual, mostrando como me situo: http://inquietacaopedagogica.blogspot.com/2006/05/eduqus-algum-sabe-ou-conhece-este.html

Voltarei certamente a esta temática! Para vos falar do Filme III.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Às Escolas o que é das Escolas, às famílias o que é das famílias!

Quando os professores, e também as professoras, acham que os pais devem manifestar a forma como cuidam dos seus filhos e se preocupam com eles, acompanhando-os nos trabalhos de casa passados pela Escola, fazem circular mensagens na Internet como esta ...


Bem sei que a tarefa, que, segundo o mail que me chegou, deu origem a esta mensagem era um problema muito simples, mas por que raio têm os pais a obrigação de acompanhar os filhos na realização dos TPC?

Não terão os pais outras coisas, muito mais importantes para fazer no acompanhamento dos seus filhos? Dar-lhes atenção contando-lhes histórias, envolvendo-os nas tarefas do quotidiano, passeando com eles ou visitando familiares, partilhando com eles os tempos de descanso e lazer? Ajudando-os a construir os seus projectos de vida, conversando com eles sobre o que mais gostam de fazer e sobre o seu futuro? E, ainda, proporcionando-lhes experiências diversas: deixá-los brincar sózinhos com os amigos, de forma não organizada; também experiências artísticas ou desportivas (e há imensas por esse país fora); viver junto da natureza - acampando, passeando, indo à terra, ... acampamentos, campos de férias, idas à praia, ...
A conversa sobre a importância da Escola pode ser um bom ponto de partida... sobre a sua própria relação passada com Escola ... as diferenças entre as Escolas de ontem e as Escolas de hoje ...

Continua a haver um enorme mal entendido nesta relação das Escolas com os Pais ou Encarregados de Educação: à Escola o que é da Escola, às famílias o que é das famílias.
Mesmo havendo o dito TPC, não seria suposto que uma tão simples tarefa fosse realizada de forma autónoma pelo aluno? Se calhar até era isso o pretendido, mas o aluno, como forma de ter a atenção do pai, foi pedir-lhe uma pequena ajuda ... Podemos depois imaginar múltiplos cenários sociais ... uma grande diversidade de situações, das social e culturalmente mais favorecidas, às mais desfavorecidas ... questões que estão completamente fora do domínio de intervenção da Escola e que podem desencadear uma mensagem como esta ...

O que me incomoda é haver tantos professores, e todos já nos temos cruzado com alguns, que consideram os pais responsáveis pelos trabalhos de casa dos filhos. E quando tal não acontece, acham que os pais não têm nenhum interesse pelos percursos escolares dos respectivos filhos. Há mesmo muito pai e muita mãe por aí que assumiram completamente este papel e que passam horas a fio, diariamente, numa luta desalmada com os filhos, por causa dos ditos TPC, como se não houvesse mais nada que pudesse ser motivo de relação e de conversa entre pais e filhos, nos exigentes quotidianos que todos levam.

Como poderão assim transmitir-lhes o gosto pela vida?

Também os pais precisam de ajudar os filhos a criar os seus próprios espaços de vida: o que se passa na Escola é assunto da Escola, o que se passa em casa é assunto de casa. Claro que ambos os lados devem comunicar e estar atentos ... não podem é confundir papéis!

Esta confusão resulta da grande pobreza cultural e comunitária em que se vive hoje. Esperemos que melhores dias aí venham.

P.S. - Nunca me preocupei com os TPC das minhas filhas. Lá em casa isso foi sempre considerado como um assunto entre elas e a Escola, num espaço progressivo de autonomia que é preciso ajudar a construir. Quando elas me vinham pedir ajuda, aí a conversa era outra, e claro que ajudava com todo o gosto, mesmo que estivesse cansada.

[Muito obrigada a quem me fez chegar esta mensagem e me deu ocasião para escrever sobre algo que há muito me vem preocupando!]

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

Um Poema de Rosa Lobato Faria

"Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes
a laranjeira em flor a cor do feno
a saudade lilás que há nos poentes
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente."

(de Memória do Corpo, Textual editores, 1992)

Encontrei este lindíssimo poema em: http://xm-girafadepatins.blogspot.com/

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Companhias de Seguros - é preciso ser muito assertivo!!

É preciso ser muito assertivo com as companhias de seguros.

Na sequência da minha mensagem anterior «Companhias de Seguris: para que servem?»

Acabo de receber o reembolso das despesas da operação da minha filha. Não sem ter falado com pessoas conhecidas que trabalham naquele grupo bancário e segurador, nem ter deixado de pedir formalmente dados mais específicos sobre o respectivo processo (como o número do processo na Companhia de Seguros).

Há dois dias, sem ter recebido uma resposta ao meu pedido anterior, passada uma semana sobre o mesmo, decidi apresentar uma reclamação formal.

Coincidência, das coincidências, ontem recebo o cheque na caixa do correio datado do dia 5/02/2010.

Já deixei de conseguir contar os «factos extraordinários»!

Ainda pensei em dar uma festa, por ter recebido o cheque, mas depois fiquei muito triste por pensar que, por vez, damos festas por outros fazerem o que faz parte das suas obrigações!

Vou ficar mais atenta aos lucros anuais das instituições bancárias e das companhias seguradoras!

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

«Acende-me um pássaro ...»

Este foi o mote que me deixaram (a Lina) para este meu tatear poético ...

http://digital-pixels.blogspot.com/2010/02/acende-me-um-passarolight-me-bird.html



Acender pássaros
que prendem ...
corações,
mentes,
corpos,
almas,
ventos,
mares e oceanos,
terras e continentes,
povos e gentes,
do norte e do sul,
do ocidente e do oriente,
entre furacões e tormentas,
pôres do sol e calmarias ...

... acender pássaros, sempre!

[7/02/2010]

domingo, fevereiro 07, 2010

«Força»

Ontem, depois de mais um susto, desta vez pregado pelo meu coração, recebo esta prenda de «Boas Vindas» de um amigo. Aqui fica com um grande beijo agradecido, António.



Woman and Her Hands

(By Asuman and Atanur Dogan - http://www.doganart.com/)

Maria da Graça tem a graça
De deixar atrás de si, quando passa,
O perfume de setenta e picos primaveras.
E o ar, esse, fica mais cheio
Daquele sorriso de raça
Que nem o tempo quis apagar
Do rosto que o sol moldou
No sal da vida que passa.

Às vezes, senta-se na praça
Descansa olhares vagos, distantes,
Nos risos contagiantes
Dos petizes que por lá brincam.
E Maria da Graça, perdendo a graça,
Ainda se sonha, assim criança,
Na adulta que sempre foi.
Que até mesmo as risadas
Soltas em infantis gargalhadas
Eram sempre para conter
O choro faminto e triste
Dos que depois dela, lá em casa,
A vida pariu, para sofrer.

De letras nada sabe
Porque sempre lhe disseram
Que as mãos serviam para fazer
E a cabeça só para ver.
E Maria da Graça sonhava,
Como qualquer outro ser,
Em ser quem por a vida passa,
Em vez de a ver correr.
Mas nem o sonho duma casa,
Que tanto a fez querer,
Mudou, do destino, a traça
Com que a vida a viu nascer.
E, por maldição ou quebranto,
Viveu Maria da Graça em pranto
A ver a vida madrasta
Desfazer-lhe o pouco encanto
Do nada que conseguia ter.

Olha para trás e, por desgraça,
Vê que em nada deixa a marca
Que outros lhe possam ler.
Infeliz de quem a vida destinou
A não poder provar o gosto
De ver, no papel transposto,
A graça que Deus lhe deu.

Mas um dia Maria da Graça,
Ao ouvir os risos na praça,
Dos petizes que por lá brincam,
Levanta a cabeça do breu
E abre as mãos de só fazer
Para agarrar, da vida baça,
O pouco, que quer só seu.
E, na força com que se faz raça,
Num gesto que a ultrapassa,
Apaga do destino a desgraça
De tanto viver sem deixar traça.

Mestre-escola... por favor?
Chamo-me Maria da Graça
Tenho, do que a vida me ensinou,
Cicatrizes de amargo sabor,
De tanto olhar pela vidraça.



E agora, Maria da Graça,
Com letras de avidez
É tempo de quebrares a vidraça
E recontares, com a tua graça,
O sonho de menina-garça,
Mas começando por...
"Era uma vez..."

*****
[Esta é a singela homenagem a todas as Marias da Graça que, com garra, nos dão grandes lições de querer e de viver.
É, também, dirigida aos formadores e organizadores locais do ensino e educação de adultos deste país, pela entrega e carinho com que desenvolvem o seu trabalho.
O meu bem-haja a todos.]


António San
(2005)