quarta-feira, julho 30, 2008

Congresso do Movimento da Escola Moderna





É verdade: apesar da muita desmotivação que reina entre os professores portugueses (mas também entre os outros colegas europeus) ainda houve cerca de 370 que se juntaram na semana passada, em Tomar, para relatarem uns aos outros os aspectos mais
(http://tomar.com.sapo.pt/charola.html)
interessantes do trabalho que desenvolveram com os seus alunos ao longo do ano lectivo que agora termina.

Terminou o ano lectivo, mas nada faz demover estes professores e educadores, dos vários níveis de ensino, na sua determinação em trabalhar para que todos os seus alunos aprendam.

Aprendam e adquiram também um enorme gosto por aprender: fazem projectos, ou melhor, estudos - pesquisam, fazem entrevistas, convidam especialistas para os ensinar. Estes especialistas podem ser muito variados: um padeiro para os ensinar a fazer pão, uma cigana para os ensinar a dançar flamengo, um biólogo para fazerem experiências em conjunto sobre o ar e a água, ou ainda um matemático que os vai desafiar, através de figuras e composições geométricas ou de jogos.

Vi também como os jogos de palavras e o brincar com as letras, a correspondência escolar, os blogs, entre muitas outras estratégias de escrita e de contacto com escritores portugueses, podem ser recursos que, utilizados de forma estimulante, podem contribuir para que a escrita se desenvolva.

Desenvolver a escrita, o gosto por aprender, por vencer desafios são as preocupações destes professores: vêm aperfeiçoando há 40 anos, no nosso país, um modelo pedagógico em auto-formação cooperada (todos estão sempre prontos a aprender uns com os outros). Trata-se de uma forma de trabalhar em que todos os alunos têm o seu lugar e são valorizados, aprendendo a resolver conflitos de interesses de forma negociada e consensual, apropriando-se de instrumentos de trabalho e de aprendizagem que fazem parte do quotidano de todos nós: agenda, planificação, avaliação/balanço, momentos de regulação e de avaliação - o Conselho de Cooperação Educativa.

Mesmo em tempo complicados, como aqueles que vivemos, participar em redes sociais, profissionais e de formação como esta, torna-se vital.

Obrigada a todos e a todas que comigo partilharam estes dias!

domingo, julho 20, 2008

Quinta da Fonte - um desafio para todos - 2

Se os males da Quinta da Fonte entravam na escola, a escola tinha de descer ao bairro

20.07.2008, José Manuel Fernandes e Raquel Abecasis (Renascença - PÚBLICO)

Em três anos, um grupo de escolas problemáticas transformou-se num modelo a seguir

Félix Bolaño conhece a Quinta de Fonte por dentro e por fora. E os seus habitantes também. Como presidente do Agrupamento de Escolas da Apelação, mudou as escolas e empenhou-se em mudar o bairro. O seu trabalho levou mesmo o Presidente da República a visitar a escola para aí falar sobre como, mesmo numa zona difícil, é possível mobilizar os jovens para a cidadania. O que mostra que poucos conhecerão tão bem aquele bairro, os seus males e as suas virtudes como Félix Bolaño.
Ficou surpreendido com o tiroteio da semana passada?
Sim e não. O trabalho de intervenção social só tem resultados a longo prazo e é um caminho com altos e baixos. O que interessa é que se progrida, que não se desista.
As autoridades querem que a população que fugiu regresse, esta recusa-se. O que aconselha?
Para cada problema é preciso encontrar sempre uma solução, e cada problema tem de ser visto como uma oportunidade. Neste caso, a oportunidade é tentar que aumente o diálogo com os que têm mais dificuldade de integração. O que verifico no terreno é que se geraram ondas de solidariedade dentro do bairro e que este está mais disposto a aceitar as pessoas de etnia cigana. Por isso, o problema é eles aceitarem voltar e trabalharmos para fazer daquele bairro um bairro cada vez melhor.
Como é que se trabalha numa zona daquelas? Há problemas de polícia, há carências sociais (90 por cento das famílias beneficiam de apoios sociais), mas também parece haver quem tenha um nível de vida que não se esperaria encontrar num bairro social...
O meu papel é o de criar, em conjunto com todas as entidades que estão no terreno, oportunidades de inclusão, mesmo para os criminosos. Cada marginal que opta por cumprir com as regras da sociedade representa uma vitória para nós. E, quando isso sucede, normalmente os que se tornam cidadãos cumpridores tornam-se também nos nossos melhores aliados no terreno.
Como é que, em quatro anos, transformou a escola num agente de intervenção social?
Quando aqui cheguei, e formei a minha equipa, deparei com uma escola fechada, que tinha virado as costas aos problemas do bairro. Por isso, o clima do bairro e da escola piorava de ano para ano.
O que se passava na escola?
Indisciplina, agressividade, a percepção pelos alunos de que a escola lhes queria mal...
O que é hoje a Quinta da Fonte? De fora parece um bairro com uma qualidade de construção e do espaço urbano bem superior à de muitos outros bairros sociais...
Sim, porque esteve para ser uma cooperativa de habitação. Mas depois o Estado despejou lá as pessoas desalojadas pela Expo, sem um mínimo de preparação.
Isso potenciou os problemas dos bairros de barracas?
A passagem da horizontalidade de um bairro de barracas para a verticalidade de um bairro social cria sempre problemas se não for bem acompanhada. Num bairro de barracas eu tenho a minha, ao meu lado está um amigo, criam-se comunidades onde os membros se entreajudam. Lá dentro, com os de dentro, nem costuma haver criminalidade. Mas, quando se passa para a verticalidade, as relações de vizinhança desfazem-se e as famílias são colocadas junto de vizinhos que não conhecem, muitas vezes com formas de vida diferentes.
Passaram, entretanto, dez anos...
É difícil recriar esses laços sem uma intervenção adequada. Quando voltei à escola apercebi-me de que a conflitualidade do bairro vinha para dentro da escola.
E como reagiram?
Abrindo a escola à comunidade. Não para pedir, antes para oferecer. Por exemplo: sabendo que a Segurança Social não tem meios, oferecemo-nos para ser interlocutores, para fazer tudo o que fosse necessário como mediadores porque conhecíamos melhor o bairro. O mesmo com a Câmara de Loures e por aí adiante, criando uma rede social com os nossos parceiros...
Que parceiros?
Para além da câmara e da Segurança Social, os clubes, a Pastoral dos Ciganos, a Ajuda de Mãe, os Médicos do Mundo, a PSP. Estas instituições estavam soltas, cada uma actuava pontualmente e de forma dirigista. O que fizemos foi sentar todos à mesa e passarmos a actuar de forma coordenada.
Mas não há choque entre as comunidades de origem africana e as de etnia cigana? O que falhou no vosso esforço de integração?
Integrar comunidades é muito difícil, sobretudo quando trabalhamos com pessoas de etnia cigana, que é mais fechada e a quem não podemos exigir que mude a sua forma de ser e de estar.
Quando o Presidente veio à vossa escola, nas imagens só se viam africanos, não ciganos...
Perto de 90 por cento dos alunos são de origem africana, até porque nos 2.º e 3.º ciclos a etnia cigana tem tendência a desistir da escola e temos feito tudo para a convencer de que vale a pena continuar. Para isso temos de combinar a educação formal, a que o Ministério nos obriga, e a educação não formal, que tem tanta ou mais importância que seguir os currículos.
O que é a educação não formal?
É transmitir competências sociais tão importantes como saber estar em grupo, conseguir ser diferente do grupo, ser capaz de ser minoritário e respeitar os outros, sabendo que os outros o respeitam, conseguir formular um projecto de vida, dizer o que se quer ser quando se for adulto. É também saber resolver problemas de relacionamento, saber pedir ajuda, não ter vergonha, no fundo, responder aos problemas de um bairro onde há muitos ilegais que têm medo e não sabem o que fazer. A nossa preocupação é dar-lhes ferramentas para viverem melhor na nossa sociedade.
E há famílias desestruturadas?
Muitas, sobretudo devido à instabilidade e às exigências do mercado de trabalho. Muitos pais trabalham longe e não podem regressar para as famílias, muitas mães fazem horários nas limpezas que as impedem de estar com os filhos. E há também os que nem estão preparados para ter filhos...
Mães adolescentes?
Sim, muitas, mas isso passa-se em quase todos os bairros sociais. Aqui, como em Espanha ou na Alemanha. Não podemos é ficar agarrados aos problemas. Se conseguirmos dar outras perspectivas de vida às pessoas, elas aderem. Hoje temos ex-alunos que, em vez de ficarem num bar a beber cerveja, colaboram, trazem-nos pessoas, trabalham para a comunidade. Um bairro social tem líderes como não há em muitas outras zonas, e são lideranças fortes. Se conseguirmos que venham para o lado da comunidade, e não para o da criminalidade, são lideranças com um potencial fantástico.

sábado, julho 19, 2008

Quinta da Fonte - um desafio para todos

http://dn.sapo.pt/2008/07/12/cidades/vinganca_deixa_quinta_fonte_entregue.html

Que país é este que deixa acumular tantas tensões?

Que sociedade é esta em que as pessoas que nela vivem se sentem tão inseguras que necessitam de andar armadas?

Têm a certeza que vivemos todos no mesmo país?

Quantas Quintas da Fonte haverá por esse país fora?

Como dizia Brethold Brecht:

«Todos dizem que são violentas as águas dos rios, mas ninguém fala da violência das margens que as comprimem!»

Lamentável o que o diz e faz o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Loures, lavando as mãos, como Pilatos, dizendo que já fez tudo o que tinha a fazer, que agora o resto compete às autoridades policiais ...

... e a ele não lhe competiria também, em conjunto com o Governo Civil, juntar à volta de uma mesa todas as entidades que possam ajudar a diminuir tensões e a falar com as populações e a estar por perto? ... até para dar confiança às populações a quem diz que não pode arranjar outro local para viver! ...

Vamos lá Sr. Presidente! ... o desafio é muito grande para todos, mas principalmente para os directamente implicados.

Temos que analisar a fundo onde anda o nosso racismo [https://sites.google.com/site/educacaopelapaz/novidades223]

De onde terá que vir o exemplo? ... nunca é tarde para fazer o que há muito deveria ter sido feito e para arrepiar caminho ... ajudando estas populações a viverem em conjunto umas com as outras - já abundam os exemplos por esse país fora e por isso também se sabe o que é necessário fazer.

O exemplo está a ser dado pelas Associações de Jovens! - esses já estão a aprender! MUITOS PARABÉNS!!

Até aí tão perto, a Câmara de Loures tem com quem aprender! ... ÂNIMO, DETERMINAÇÃO, CAPACIDADE DE OUVIR O OUTRO E TRANQUILIDADE!! ... é preciso que não faltem!